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SMART CITIES, DUMB PEOPLE

Coluna | TecnologiaSMART CITIES, DUMB PEOPLE
Ao delegarmos tarefas às máquinas, nos tornamos intelectualmente sedentários

As cidades inteligentes prometem um futuro onde tudo funciona como um relógio suíço: trânsito fluindo, recursos otimizados, serviços públicos acessíveis com um toque no smartphone. Mas enquanto as máquinas se tornam mais espertas, será que as pessoas estão não ficando mais limitadas intelectualmente?

É irônico pensar que, em um mundo onde temos acesso a mais informações do que qualquer geração anterior, muitos de nós optam por absorver apenas o básico — e frequentemente sem qualquer análise crítica. Dependemos de algoritmos que decidem o que vemos, o que compramos e, muitas vezes, o que pensamos. A inteligência artificial parece ter se tornado a curadora oficial de nossas experiências de vida.

Isso se reflete até mesmo em nossa capacidade de lidar com desafios do cotidiano. A criatividade e a inovação, tão celebradas como marcas do progresso humano, parecem ameaçadas quando nos limitamos a soluções pré-programadas. A ausência de esforço intelectual para resolver problemas básicos não apenas diminui nossa autonomia, mas também enfraquece nosso potencial para desenvolver ideias disruptivas. Quando foi a última vez que você tentou descobrir algo por si mesmo, sem recorrer imediatamente a uma pesquisa na internet ou a um aplicativo?

Imagine uma manhã típica em uma cidade inteligente: você acorda com o alarme de um aplicativo que já ajustou sua rotina com base no trânsito previsto até seu trabalho. No café, um dispositivo sugere suas refeições, baseando-se nos nutrientes que você “precisa”. No trabalho, ferramentas automatizam decisões, economizando seu “tempo cognitivo”. Parece ótimo, mas há um custo oculto: cada vez mais, somos espectadores de nossas próprias vidas.

Essa dependência de soluções tecnológicas pode atrofiar nossa capacidade de resolver problemas por conta própria. Já não é necessário lembrar de caminhos, fazer contas mentais ou até mesmo questionar informações. Ao delegarmos essas tarefas às máquinas, nos tornamos intelectualmente sedentários, aceitando respostas prontas sem contestação.

O que está em jogo não é apenas a capacidade individual, mas o impacto coletivo. Sociedades que não exercitam pensamento crítico tornam-se mais vulneráveis a manipulações, sejam elas políticas, econômicas ou culturais. Em vez de usar a tecnologia como um trampolim para o progresso intelectual, corremos o risco de usá-la como uma muleta permanente.

A solução? Não é abandonar as cidades inteligentes, mas equilibrar o uso da tecnologia com práticas que incentivem o pensamento autônomo. Promover a educação digital é um passo essencial, ensinando não apenas como usar ferramentas tecnológicas, mas também como questioná-las. Um cidadão de uma cidade inteligente precisa ser mais do que um usuário passivo; ele deve ser um participante ativo, capaz de navegar entre as informações com discernimento e curiosidade.

Cidades inteligentes são, sem dúvida, um avanço extraordinário. Mas, sem mentes igualmente afiadas para habitá-las, corremos o risco de viver em paraísos tecnológicos habitados por sociedades intelectualmente limitadas. Afinal, de que adianta uma cidade ser “smart” se seus moradores não são?

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