Neuralgia do trigêmeo
Conhecida como uma das piores dores do mundo, a neuralgia do trigêmeo é uma condição neuropática que afeta geralmente apenas um lado do rosto, caracterizada por episódios de dores intensas, repentinas e recorrentes de curta duração, descritos como sensação de choque elétrico ou pontada. A dor pode ser desencadeada por estímulos comuns, como falar, sorrir, mastigar, se maquiar, se barbear e escovar os dentes, limitando severamente a qualidade de vida das pessoas que sofrem com a doença.
Conforme explica o neurocirurgião Ricardo Caramanti, especialista do Hospital de Base (HB) de Rio Preto, a dor associada ao nervo trigêmeo pode ocorrer em toda a região que ele inerva ou somente em áreas específicas, como a mandíbula, o maxilar ou acima do olho. O distúrbio raramente ocorre no rosto todo, em ambos os lados.
“A principal causa da dor relacionada ao nervo trigêmeo é a compressão desse nervo por uma artéria chamada artéria cerebelar superior, que está localizada próxima ao tronco cerebral. Outras possíveis causas incluem a lesão do nervo durante a extração de um dente ou sua compressão devido à presença de um tumor cerebral”, afirma Caramanti.
O neurologista Eduardo Estephan, médico do Hospital Sírio-Libanês de São Paulo e também do HB, destaca que o nervo trigêmeo é responsável por transmitir os estímulos sensitivos da cabeça e do rosto para o cérebro, sendo essencial para a percepção do toque e da dor, especialmente nas regiões frontal e superior da cabeça. No entanto, qualquer lesão nesse nervo pode comprometer seu funcionamento.
“Nessas situações, o nervo pode não perceber bem os estímulos de toque, deixando a área acometida ‘anestesiada’, mas também pode causar a sensação de dor mesmo sem um estímulo propriamente doloroso. Ou seja, o nervo lesionado acaba sentindo dor de forma espontânea ou desencadeada por um simples toque, que normalmente seria percebido apenas pelo tato”, esclarece Estephan.
De acordo com o neurologista Renato Simões, especialista do Instituto de Neurologia Rio Preto, a dor provocada pela neuralgia do trigêmeo pode durar de um a vários segundos, podendo, em alguns casos, se estender por até dois minutos. A maioria dos episódios ocorre em série e dura menos de uma hora. Além disso, podem ocorrer múltiplos ataques por dia, ultrapassando 50 eventos. “O paciente pode ficar livre desses ataques por vários meses ou anos de uma forma remitente recorrente, voltando a ter episódios dolorosos a qualquer momento”, afirma.
Simões ressalta que a prevalência da neuralgia do trigêmeo na população geral é de 0,03% a 0,3%. A incidência anual é de cerca de quatro a 13 novos casos por ano para cada 100 mil habitantes. “O início dos sintomas geralmente ocorre após os 50 anos, mas pode afetar pessoas de qualquer idade, incluindo crianças. Pacientes com causas secundárias ou idiopáticas tendem a desenvolver a doença em idades mais precoces quando comparados a pacientes com compressão neurovascular. Geralmente são casos esporádicos, porém 11% dos pacientes podem apresentar história familiar positiva”.
Neuralgia trigeminal clássica: critérios clínicos associados a sinais de compressão neurovascular (atrofia da raiz do nervo ou deslocamento) em exame de imagem.
Neuralgia trigeminal secundária: quadro clínico associado a outra causa, como uma placa desmielinizante (esclerose múltipla) ou uma massa local (ex: tumor).
Neuralgia trigeminal idiopática: apresenta os critérios clínicos, porém a causa é desconhecida, e os exames de imagem e eletrofisiológicos são normais.
Fonte: Neurologista Renato Simões, especialista do Instituto de Neurologia Rio Preto
Os principais fatores de risco são:
Sexo feminino
Idade acima de 50 anos
Hipertensão arterial
Doenças desmielinizantes
Predisposição genética a tumores benignos de nervos
Predisposição genética a hipersensibilidade de nervos
Fonte: Neurologista Eduardo Estephan, especialista do Hospital Sírio-Libanês de São Paulo e também do HB de Rio Preto
Alimentos que podem ser associados a gatilhos para a neuralgia do trigêmeo e devem ser evitados:
Cafeína
Alimentos quentes, frios ou apimentados
Álcool
Frutas cítricas
Bananas
Alimentos ricos em açúcar e altamente processados
Fonte: Neurologista Renato Simões, especialista do Instituto de Neurologia Rio Preto
O diagnóstico da neuralgia do trigêmeo é essencialmente clínico. Um especialista experiente, por meio de uma anamnese detalhada e exame físico, consegue identificar a doença. Para investigar a causa e determinar o tratamento mais adequado, exames adicionais, como a ressonância magnética de crânio e a angiorressonância magnética, podem ser solicitados. Diversas opções de tratamento estão disponíveis para aliviar os sintomas, incluindo o uso de medicamentos e procedimentos cirúrgicos.
“A primeira linha de tratamento para a neuralgia do trigêmeo envolve medicamentos específicos para controlar a dor, como antiepilépticos. Em casos de dor incapacitante pode ser necessário internar o paciente para um tratamento endovenoso, buscando uma melhora mais rápida. Intervenções cirúrgicas como a descompressão microvascular ou procedimentos percutâneos ablativos podem ser considerados em casos refratários às medicações, ou quando estas não são bem toleradas devidos a efeitos colaterais”, explica o neurologista Eduardo Estephan.
O neurocirurgião Ricardo Caramanti pontua que, atualmente, estudos com o implante de neuroestimuladores na medula espinhal e no Gânglio de Gasser têm mostrado resultados, principalmente, nos casos refratários ao tratamento convencional. “Há também estudos com tratamentos a laser que melhoram a dor facial dos pacientes”
Ricardo alerta ainda que o estilo de vida e a alimentação podem influenciar na frequência ou intensidade das crises de dor. “É sabido que as pessoas que apresentam maiores índices de estresse no dia a dia e adotam rotinas menos saudáveis têm dores mais intensas e mais frequentes quando se trata de neuralgia do trigêmeo”.