Mpox: nova cepa registrada em São Paulo acende o alerta
O primeiro caso de uma nova cepa do vírus mpox no Brasil, a 1b, foi confirmado pelo Ministério da Saúde, no último dia 7. A paciente, residente de São Paulo de 29 anos, manifestou os primeiros sintomas em 16 de fevereiro, após contato com familiares provenientes da República Democrática do Congo, região endêmica para a doença. Submetida a isolamento no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, a paciente recebeu alta em 12 de março, completamente recuperada. Até o momento, novos casos não foram identificados.
Anteriormente conhecida como varíola dos macacos (monkeypox), a mpox é uma zoonose causada pelo vírus mpox, do gênero Orthopoxvirus. A doença é caracterizada por erupções cutâneas ou lesões bolhosas na pele, que geralmente se concentram no rosto, nas palmas das mãos e nas solas dos pés.
A infectologista Giovana Pena Ferraz explica que a mpox é dividida em dois principais grupos de cepas, conhecidos como clado 1 e clado 2. O clado 1 é composto por cepas mais virulentas e graves, com uma taxa de mortalidade em torno de 10%, sendo mais frequente na região da República Democrática do Congo. Já o clado 2 engloba cepas mais brandas e benignas, com uma taxa de mortalidade reduzida, cerca de 1%, e uma menor taxa de transmissão entre as pessoas.
“Essa nova cepa, chamada de clado 1b, faz parte do primeiro grupo de cepas mais virulentas, com uma taxa mais elevada de mortalidade e alta transmissibilidade de pessoa a pessoa. Caso não adotemos os cuidados necessários para evitar a propagação do vírus, ela pode ser responsável por uma nova pandemia. Sem uma vigilância intensiva e eficaz para evitar que o vírus se propague rapidamente entre as pessoas, pode causar problemas futuros”, afirma a médica.
O infectologista André Neves Alves orienta que, caso uma pessoa apresente sintomas ou tenha tido contato próximo com alguém infectado pela mpox, é importante procurar um profissional de saúde ou ir a uma unidade de saúde para orientação, avaliação e cuidados médicos. “Sempre que possível, isole-se, evite o contato próximo com outras pessoas, e lave as mãos regularmente. O profissional de saúde poderá realizar a coleta de uma amostra ou orientá-lo sobre o local adequado para essa coleta, realizando a análise necessária para oferecer o tratamento adequado.”
Segundo o especialista, as complicações dos casos graves de mpox incluem infecções de pele, pneumonia, confusão mental e infecções oculares que podem levar à perda de visão. “Recentemente, de 3% a 6% dos casos relatados resultaram em morte em países endêmicos, geralmente em crianças ou em pessoas que têm outras doenças. No entanto, esses números podem ser uma superestimação, pois a vigilância nos países endêmicos é limitada”, ressalta Alves.
Os sintomas da mpox desaparecem geralmente de forma espontânea. No entanto, a infectologista Giovana Pena Ferraz ressalta que o tratamento principal consiste em terapia de suporte, que inclui medicamentos para aliviar sintomas como febre e dor, além de antibióticos se houver infecção secundária nas lesões cutâneas. “Em casos mais graves, quando o paciente necessita de internação e o quadro evolui de uma forma desfavorável, pode ser utilizado o antiviral.”
De acordo com o infectologista André Neves Alves, a principal recomendação é deixar as erupções secarem naturalmente ou, se necessário, cobri-las com um curativo úmido para proteger a área. Além disso, é importante evitar tocar em qualquer ferida na boca ou nos olhos. Enxaguantes bucais e colírios também podem ser usados para aliviar os sintomas, desde que não contenham cortisona. “Para casos graves, pode ser recomendada a imunoglobulina vaccínia (VIG). O antiviral tecovirimat, comercializado como TPOXX, desenvolvido para tratar a varíola, também foi aprovado em 2022 para o tratamento da mpox”, reforça.
O infectologista André Neves Alves explica que as vacinas desenvolvidas para a varíola também podem oferecer proteção contra a mpox, incluindo a Dryvax, licenciada na década de 1930 pela Administração de Alimentos e Drogas dos EUA (FDA), a ACAM2000, licenciada em 2007, e a MVA-BN, também conhecida como Imvanex, Imvamune ou Jynneos, desenvolvida mais recentemente e aprovada por autoridades reguladoras na União Europeia, Canadá e Estados Unidos, para prevenir a varíola e a mpox.
No entanto, o especialista menciona que, desde a erradicação da varíola em 1980, a maioria das vacinas contra a doença não está amplamente disponível. Em alguns países, os imunizantes podem ser disponibilizados em quantidades limitadas e para uso conforme as diretrizes nacionais. E, embora alguns estudos mostrem que as pessoas vacinadas contra a varíola podem ter algum nível de proteção contra a mpox, uma dose de reforço pode ser necessária para garantir.
“Independentemente da disponibilidade de vacinas, a vacinação em massa da população não é necessária nem recomendada para a mpox. Na atual situação epidemiológica dos surtos fora dos países endêmicos, a OPAS e a OMS recomendam que a vacinação seja oferecida apenas aos contatos próximos de casos de mpox, e não em massa”, alerta Alves.
A infectologista Giovana Pena Ferraz destaca que, em 2022, quando houve um surto de mpox em Rio Preto, com alguns casos registrados, a vacinação para os grupos prioritários foi realizada, mas a oferta de vacinas foi limitada. “Este ano, esperávamos receber uma quantidade significativa de vacinas, já que começaram a surgir novos casos de mpox, mas, na verdade, a vacina não chegou. Apesar de existir, nem sempre ela está disponível para uso”, pontua.
Recém-nascidos, crianças e idosos
Portadores de HIV com imunodeficiência avançada
Pacientes em tratamento de quimioradioterapia
Profissionais de saúde devido à maior exposição ao vírus
Fonte: Infectologista André Neves Alves
Medidas de prevenção
Evite o contato físico com pessoas com suspeita ou
confirmação de mpox
Caso seja necessário ter contato físico:
Oriente a pessoa infectada a se isolar e cobrir qualquer
lesão de pele, se possível, usando roupas sobre a
erupção
Use luvas e máscara cirúrgica e também peça para a
pessoa infectada que coloque uma máscara cirúrgica,
especialmente se tiver lesões na boca ou estiver tossindo
Evite contato pele a pele sempre que possível e use
luvas descartáveis se precisar ter contato direto com as
lesões
Use máscara e luvas ao manusear roupas pessoais ou
roupas de cama da pessoa infectada, caso ela não possa
fazer isso sozinha
Lave regularmente as mãos com água e sabão
ou higienize com álcool em gel 70%, especialmente
após o contato com a pessoa infectada, suas roupas,
toalhas, roupas de cama e outros itens ou superfícies
que possam ter entrado em contato com as erupções
cutâneas ou secreções respiratórias, como utensílios e
pratos, por exemplo
Lave as roupas, toalhas, utensílios usados para comer
e roupas de cama da pessoa infectada com água morna
e detergente
Limpe e desinfete todas as superfícies contaminadas e
descarte corretamente os resíduos contaminados, como
curativos, por exemplo
Fonte: Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS)
Sintomas da mpox:
Febre
Dor de cabeça intensa
Dores musculares
Dor nas costas
Fraqueza
Inchaço dos linfonodos
(“gânglios”)
Erupções cutâneas ou lesões
bolhosas, que começam geralmente
de 1 a 3 dias após o início da
febre. Elas podem ser planas ou
levemente elevadas, preenchidas
com fluido claro ou amarelado.
O número de lesões pode variar.
Elas formam crostas, secam e
caem. Concentram-se no rosto,
nas palmas das mãos e nas solas
dos pés, mas podem aparecer na
boca, nos órgãos genitais e nos
olhos. As manifestações geralmente
duram de duas a quatro semanas e
desaparecem por conta própria, sem
tratamento específico.
Fonte: Organização Pan-Americana da Saúde
(OPAS)