Quando você acha que um prato vai dar certo, faça-o! O máximo que pode acontecer é você não prepará-lo outra vez. Quando penso em uma receita, imediatamente imagino o formato e os cortes dos ingredientes e, em seguida, as cores de cada um. Hummm, falta verde, ou tem vermelho demais! Como eu fotografo, além da comida, tem o cenário, e o mais difícil, a luz.
Este prato eu fui rabiscando no papel, pois queria uma massa bonita, que fosse servida como salada. Peguei o macarrão tipo gravatinha e, para dar uma sofisticada, coloquei o bacalhau com seus pares: cebola, alho, azeitona, azeite, pimentão vermelho e amarelo. Mas faltava algo. E, mesmo sendo duas as fontes de carboidrato no mesmo prato, foi a vez do grão-de-bico. Esta leguminosa, parente do feijão, da lentilha e da ervilha, deu um charme à salada, com sua forma arredondada, e, sem a casquinha, os temperos pegam melhor.
Escolhi duas cores de pimentão, o amarelo e o vermelho, que é totalmente maduro, mais doce e de fácil acesso. Existem outros: o laranja, o preto, até o branco e o mais barato e popular, que é o verde. Todos são do mesmo pé: o tempo da colheita é que é diferente, exatamente como acontece com as azeitonas, a verde e a preta, que é a madura.
Quanto ao bacalhau, se eu tiver uns quatro dias ao menos, prefiro tirar o sal do bacalhau, embora ele seja mais difícil de trabalhar. Para facilitar, o dessalgado resolve. O grande truque para deixá-lo saboroso é salgá-lo com sal marinho e bastante azeite. Esse sal é bem mais suave, pois vem da evaporação da água do mar e não passa por processos de refinamento. Ele é o mesmo sal usado na borda da taça do famoso drink margarita, feito com tequila, cointreau e limão.
Tanto o bacalhau, quanto a azeitona, o azeite o grão-de-bico vieram para o Brasil, no início da colonização, no séc. XVI, trazidos pelos portugueses. Devemos ser gratos aos lusitanos, os pilares de nossa mesa. Na época, o cultivo das oliveiras em solo brasileiro chegou a ocorrer, mas foi desestimulado pela Coroa Portuguesa, para evitar concorrência com a produção europeia.
Pode fazer esta receita com tranquilidade e servir como prato único. Com certeza, você vai agradar a gregos e troianos.
Ingredientes para a salada
3 postas de bacalhau dessalgado
500g de macarrão gravatinha
250g de grão-de-bico
5 minibatatas
5 minicebolas
180g de azeitonas pretas
1 pimentão amarelo grande
1 pimentão vermelho grande
pimenta de molho
azeite
cheiro-verde
orégano
sal marinho
Como preparar o grão-de-bico
Coloque o grão-de-bico em um recipiente com água e deixe-o na geladeira, de um dia para o outro. Troque a água e coloque uma nova, para ir ao fogo em uma panela de pressão. Assim que o grão-de-bico estiver cozido, despreze a água e tire a casquinha de cada grão, pois, sem ela, o tempero é melhor absorvido e não incomoda, ao mastigar. Tempere o grão-de-bico com sal, azeite, cheiro-verde, do jeitinho que você gosta.
Como preparar o bacalhau
Deixe as postas do bacalhau dessalgado de 2 a 3 horas na água e, na sequência, cubra-o com leite e guarde-o na geladeira, de um dia para o outro. No outro dia, despreze o leite e lave o bacalhau com água corrente.
Cozinhe levemente as batatas em banho-maria.
Em uma assadeira, prepare o bacalhau, como se fosse fazer uma bacalhoada de forno. Coloque as postas, as azeitonas, as cebolas cortadas ao meio, metade dos pimentões vermelho e amarelo em tiras, o azeite. Tempere o bacalhau com sal marinho e salpique com orégano. Se gostar, use um pouquinho de pimenta em molho.Obs: Cubra a assadeira com papel alumínio e leve-a ao forno por 45 min.
Como fazer a massa
Em uma panela grande, coloque bastante água. Assim que ferver, jogue uma colher (sopa) bem generosa de sal. Ponha a massa e deixe-a ao dente. Escorra toda a água.
Como montar o prato
Monte tudo em uma travessa. Comece pela massa. Regue com azeite. Pegue a “bacalhoada”, ponha aos pedaços nesta mesma travessa. Faça o mesmo com o grão-de-bico temperado. Finalize com o restante dos pimentões picados em pequenos cubos. O cheiro-verde, para ficar mais fininho, pode ser cortado com tesoura de cozinha. Prove e acerte todos os temperos. Tem de ficar perfeito.
Harmonização
Hoje vamos de vinho verde, mais para seco. Mas se você fizer muita questão de um tinto, que seja leve, com pouco tanino e boa acidez. Não é só o prato que conta, tem o seu perfil de gosto, que deve ser respeitado. Afinal, tudo é para você ficar feliz.
Esta coluna é sempre publicada no último domingo de cada mês, sempre no meio da revista, para você destacar e guardar a receita.
