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VIRALIZANDO O VAZIO

Coluna | TecnologiaVIRALIZANDO O VAZIO
As redes sociais potencializam a visão estreita ao premiar a performance em detrimento do conteúdo

O fenômeno das crianças “coach” que está pipocando nas redes sociais é, no mínimo, curioso. Adolescentes que mal deixaram de brincar de esconde-esconde surgem em vídeos com uma retórica ensaiada, despejando discursos que oscilam entre críticas rasas ao sistema educacional e fórmulas mágicas para fazer dinheiro rápido. O problema? O modelo que pregam parece mais com uma pirâmide do que com uma lição de economia.

Dizem que a escola é inútil porque não ensina como ganhar dinheiro. E de onde vem o dinheiro delas? De vender cursos que ensinam outros a vender cursos que, por sua vez, ensinam mais pessoas a fazer a mesma coisa. Um loop um tanto quanto insustentável. Mas o mais preocupante é o tom taxativo: "Essa é a única forma de se dar bem na vida."

A escola, com todos os seus problemas e pontos de melhoria, ainda é pilar de algo essencial: o pensamento crítico. Não é sobre resolver equações ou decorar datas históricas – é sobre entender o contexto, interpretar informações e ter um mínimo de senso histórico para não repetir os erros do passado.

Claro, a tecnologia e as redes sociais desempenham papel fundamental nesse comportamento, afinal, são ferramentas poderosas, capazes de democratizar o conhecimento, mas também de amplificar o vazio. Basta um algoritmo favorável e uma narrativa apelativa para se tornar um "guru". A criança “coach” é um produto direto dessa lógica: fofura combinada com a sedução de uma solução simples para um problema complexo. Viraliza fácil.

Mas há algo mais profundo. Essa cultura do imediatismo, de descartar tudo que não parece ter um retorno instantâneo, é fruto de um mundo em que o sucesso é medido em cliques e views. O paradoxo é evidente: descartam a escola, mas se tornam dependentes de um sistema que só existe porque a sociedade – ainda – funciona graças às profissões que a educação formal sustenta.

Imagine um mundo onde ninguém se forma em engenharia, medicina ou história porque todos querem apenas vender o próximo curso milagroso. Quem constrói as pontes? Quem cuida da saúde pública? Quem registra os acontecimentos para que possamos aprender com eles? Essa mentalidade do "ganhar dinheiro pelo dinheiro" é um convite para a miopia coletiva, em que o horizonte não ultrapassa a tela do celular.

Mas não são as crianças as verdadeiras responsáveis por esses discursos; elas apenas os reproduzem sem plena consciência de seu conteúdo. Na maioria das vezes, são usadas por adultos que as colocam à frente de um jogo de promessas vazias.

As redes sociais potencializam essa visão estreita ao premiar a performance em detrimento do conteúdo. Nesse ambiente, uma criança eloquente que diz o que muita gente quer ouvir – ainda que seja um clichê vazio – tem mais chances de viralizar do que um professor que tenta explicar a Revolução Industrial. A lição não é que as redes sociais são vilãs, mas que precisamos ensinar a usá-las. E, adivinhe só, quem pode fazer isso? A escola.

Por isso, antes de descartar a escola como algo ultrapassado, vale lembrar que ela é muito mais do que uma fábrica de notas e boletins. É onde se aprende a viver em sociedade, a respeitar diferentes pontos de vista e a questionar, inclusive discursos como esses, que reduzem o aprendizado a um “custo” sem retorno prático.

Talvez esse fenômeno seja só um sintoma de algo maior. Talvez seja o reflexo de uma geração que cresceu acreditando que tudo pode ser monetizado, inclusive o próprio aprendizado. Mas o risco de apostar todas as fichas nessa visão imediatista é construir uma sociedade onde o dinheiro circula, mas o conhecimento, não. E, no fim das contas, quem paga essa conta somos todos nós.

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