ONDE ESTÃO OS PARAFUSOS?
Olhe para o seu celular. Não é uma metáfora, é literal mesmo. Vire o aparelho, analise suas bordas e procure os parafusos. Não encontrou, né? Pois é. Eles desapareceram. E a ausência deles é o primeiro indício de que estamos sendo vencidos por uma estratégia engenhosa: a obsolescência programada. Não é apenas um termo técnico, mas uma prática que foi aprimorada com o passar dos anos para tornar nossos dispositivos eletrônicos não só descartáveis, mas irreparáveis.
Antigamente, se algo quebrava, era comum arregaçar as mangas e tentar consertar em casa mesmo. Não era preciso ser especialista, nem contar com uma peça de reposição específica: bastava reaproveitar um fio, um botão de outro aparelho, improvisar um truque para resolver o problema. Essa cultura do reparo doméstico criava uma relação de autonomia e criatividade com os objetos. Hoje, isso parece impensável (e impossível). Não só os aparelhos são fechados de maneira quase hermética, como os poucos parafusos que ainda existem exigem chaves específicas, que ninguém tem em casa. É tudo meticulosamente projetado para dificultar. Os aparelhos não são apenas difíceis de abrir – eles foram desenhados para que você nem tente.
O documentário “A Conspiração Consumista”, disponível na Netflix, escancara essa lógica. O longa de Nic Stacey mostra como, desde o início do século XX, a indústria começou a planejar o ciclo de vida dos produtos para gerar demanda e, consequentemente, receita recorrente para as empresas de tecnologia. Um celular começa a dar sinais de lentidão, a bateria não dura mais, o espaço interno “misteriosamente” se esgota... Por trás disso está a intenção deliberada de reduzir a funcionalidade de um item para obrigar o consumidor a adquirir outro.
Mas não é só isso. A obsolescência programada deixou de ser apenas uma questão de tempo de vida útil. Ela agora ataca diretamente a acessibilidade ao conserto. Sem parafusos, sem manuais, sem peças disponíveis, consertar é tão caro que muitas vezes parece mais inteligente (leia-se: econômico) comprar um novo. A ironia é que estamos tão acostumados com essa dinâmica que nem percebemos. Nosso desespero diante de uma tela rachada ou de um botão que não funciona é rapidamente abafado pela tentação de adquirir o modelo mais recente, que promete mais câmera, mais bateria, mais tudo. Mas a pergunta que fica é: até quando podemos sustentar esse ciclo?
Até os anos 2010, os laptops vinham com baterias removíveis e discos rígidos acessíveis. Dava para resolver uma pane comprando uma peça nova e trocando você mesmo. Tente hoje abrir seu notebook ou trocar a bateria do seu smartphone. Dificilmente vai conseguir.
O consumidor foi desarmado contra o ciclo do descarte. E a obsolescência programada não é só um problema de bolso. É também uma questão ambiental. Todos esses aparelhos se transformam em montanhas de lixo eletrônico, com um impacto devastador para o planeta.
Há quem resista: movimentos pelo “direito ao reparo” vêm ganhando força, pressionando fabricantes a disponibilizarem peças e ferramentas ou, no mínimo, a não projetarem produtos como verdadeiros cofres indevassáveis. Mas, enquanto isso não se torna regra, seguimos em um jogo desigual.
Os parafusos desapareceram, e com eles, a nossa capacidade de consertar o que temos. Somos reféns de um sistema que, por trás da promessa de inovação, esconde uma lógica implacável: consumir ou consumir. Cada vez mais.