O QUE SOBRA PARA OS COMUNICADORES?
Fui convidado para dar uma palestra sobre redação jornalística para alunos de Comunicação Social na faculdade onde me formei. O ambiente era familiar, mas estar lá como palestrante, com alunos atentos esperando algo de mim, trazia uma nova perspectiva. O tema do evento, "A essência da comunicação humana", já deixava claro que o foco não seria apenas na técnica, mas também na reflexão sobre o papel do jornalista no mundo agora dominado (ou quase) pela inteligência artificial (IA).
Ao longo da preparação, fiquei refletindo: o que realmente interessa a essa nova geração? Eles já têm uma ideia de que precisam dominar a escrita, isso é óbvio. Mas o cenário atual exige mais do que o bom e velho texto jornalístico. Então, ao subir no palco, decidi ser direto. Sim, a redação jornalística é essencial, mas não é o suficiente. Afinal, a inteligência artificial está mudando o jogo.
Acredito, pelo próprio tema do evento, que os alunos esperavam de mim uma defesa intransigente da superioridade humana sobre as máquinas, algo como: “A comunicação humana é única, e a IA jamais será capaz de replicá-la”. Mas a verdade é que as coisas não são bem assim.
Precisei ser honesto com eles: a IA faz um trabalho incrivelmente eficiente e, em muitos aspectos, ela pode ser mais prática, rápida e precisa do que qualquer ser humano. Dói dizer, mas é verdade. As máquinas já escrevem artigos, fazem análises de dados complexas, e, em alguns casos, conseguem até criar narrativas coerentes em poucos segundos. Isso enquanto nós ainda estamos tomando nosso segundo café do dia.
A realidade é que essas tecnologias já estão produzindo textos rápidos, bem estruturados e precisos. Notícias básicas, análises financeiras, resumos de relatórios… tudo isso já pode ser feito por algoritmos em questão de minutos. Você só precisa abastecer o ChatGPT ou qualquer outra ferramenta com as informações necessárias. E isso coloca um grande desafio para quem está começando agora: se a máquina pode fazer o básico, o que resta para o jornalista humano?
Essa foi a mensagem que eu busquei passar: não adianta só confiar na criatividade humana ou no “feeling” de escrita. É preciso entender que o mercado está mudando e, com ele, as expectativas em relação ao profissional da comunicação. A inteligência artificial não é uma ameaça em si, mas sim uma ferramenta que pode tanto tirar quanto dar oportunidades, dependendo de como é usada.
Por isso, defendi que, além de aprimorarem suas habilidades de escrita, os futuros jornalistas precisam desenvolver outros talentos. Devem aprender a analisar dados, compreender métricas de engajamento, saber como usar a tecnologia para potencializar o próprio trabalho. Precisam ler, especialmente os clássicos, para aumentar seu repertório. Precisam, sobretudo, estudar a inteligência artificial, entender como ela funciona, como é aplicada no jornalismo e como utilizá-la a seu favor. Aqueles que dominarem essas ferramentas estarão um passo à frente.
A redação jornalística tradicional é importante, sim, mas os profissionais que entendem de IA e conseguem integrar essas novas tecnologias ao seu trabalho não apenas sobreviverão, mas se destacarão em um mercado que exige rapidez, precisão e adaptabilidade. E, se eu pudesse dar um único conselho naquela palestra, seria esse: não ignorem a IA. O futuro do jornalismo, como de tantas outras profissões, está intrinsecamente ligado a ela.