Após um evento dramático e decepcionante da vida, deixar de confiar é um sintoma presumível, razoável até. Retirar a confiança nas pessoas para um "balanço administrativo", digamos assim. Mas o equilíbrio emocional pede pelo refazimento, pela não generalização, pela reação menos dramática do que "desacreditar de toda a humanidade". É mais justo aquele que consegue discernir o bem e o mal, entendendo que ambos estarão presentes nas relações humanas.
Todos nós, em algum momento da vida, encontraremos pessoas ruins. Depois de uma traição, de um abandono ou de uma amizade que nos decepciona, a mente tenta nos proteger ao entender que confiar pode ser uma enorme dor. Esse desalinhamento é compreensível, mas permanecer na defensiva transforma uma estratégia de proteção em um equívoco.
São Tomás de Aquino dizia que o ser humano possui uma inclinação natural ao bem. Não porque todos sejam bons ou tampouco bons o tempo todo, mas que nossa natureza tende àquilo que aperfeiçoa a vida. O mal existe, mas não é nosso destino inevitável.
Aristóteles concluiu que a virtude é um exercício, não um talento. E que o caráter nasce do hábito. Para ele, pessoas boas são aquelas que repetidamente escolhem agir com justiça, autocontrole e generosidade.
Hannah Arendt observou que o mal raramente se apresenta como monstruosidade ou advém de grandes atos. Muitas vezes ele está na banalidade cotidiana, na incapacidade de reconhecer o outro como semelhante. A lucidez consistiria em enxergar essa realidade, mas em não permitir que ela destrua nossa esperança.
Particularmente, a mim agradam muito as lições de Sartre e Viktor Frankl, que nos lembram que entre o que nos acontece e a nossa resposta existe um espaço de liberdade. Não escolhemos quem nos feriu, mas escolhemos se essa ferida governará nossa visão de todas as pessoas.
A psicoterapia não ensina a confiar cegamente; ao contrário, ensina algo mais difícil: discernir. Colocar limites sem fechar o coração e aprender com o sofrimento sem transformá-lo numa sentença contra a humanidade ou contra si mesmo.
Em resumo, desistir das pessoas parece proteção, mas, na verdade, é conceder às piores experiências da nossa vida o privilégio de definir todas as outras. É dar a elas o status de muita importância e é preciso dar às nossas piores pessoas o devido rebaixamento que merecem.
A psicoterapia sempre nos ajuda, pois esperança não é ingenuidade. O esperançoso não é tolo nem excessivamente otimista. Ele não acredita que tudo mudará apenas porque amamos, mas também não cai no cinismo de concluir que ninguém presta. É ter a coragem racional de continuar reconhecendo o bem quando ele aparecer e continuar caminhando em direção a ele, preservando a sensibilidade para reconhecer aqueles capazes de reciprocidade, lealdade e amor, mesmo sabendo que encontrará perdas, fracassos e novas decepções.
