Curioso é que a versão reduzida acaba sendo tomada como a verdadeira. O outro passa a acreditar que aquela pessoa é, de fato, pequena, dependente, incapaz. Acontece muito nos relacionamentos afetivos e nas amizades.
Os homens, quando deixam de opinar na tentativa de agradar, são vistos como indecisos, “bananas”, sem personalidade e como quem não participa, não ajuda nas decisões. Quem recebe concessão, muitas vezes, vê fraqueza.
Embora possa atingir qualquer pessoa, esses hábitos ainda costumam recair mais sobre as mulheres. Por isso, quando elas decidem partir, seus companheiros são tomados por um espanto genuíno. Não imaginam que elas sobreviverão ao término, dado o tanto que elas se diminuem e insistem para caber. Imaginam menos ainda que elas reconstruirão a própria vida e ficarão bem novamente, que a versão frágil só existia para não competir no relacionamento.
Sabe o que eles não enxergam? Não enxergam a rede de apoio que vem depois, quando todo sacrifício não foi suficiente.
A rede masculina costuma ser mais estreita e cruel e talvez os homens tenham sido educados para viver sem ela. Foram ensinados a competir mais do que compartilhar, a esconder a dor mais do que nomeá-la, a suportar em silêncio em vez de pedir colo. Por isso, frequentemente não percebem a potência das alianças femininas.
As mulheres carregam uma memória coletiva. Há gerações compartilhamos histórias de abandono, perdas, traições, violências e recomeços. Herdamos não apenas as cicatrizes, mas também os recursos para sobreviver a elas.
Conversamos. Telefonamos umas para as outras. Choramos juntas. Levamos comida, oferecemos abrigo, escutamos pela centésima vez a mesma história sem exigir que a dor tenha prazo para acabar. Fazemos companhia quando o silêncio do abandono parece insuportável. Emprestamos esperança quando a outra já não consegue encontrá-la. É uma sabedoria ancestral esse gesto de permanecer ao lado.
Enquanto muitos acreditam que força é não precisar de ninguém, as mulheres sabem, há muito tempo, que força é ter com quem se apoiar. É por isso que tantas surpreendem depois de um rompimento. Não porque não doa, mas porque raramente atravessamos essa dor sozinhas.
A ironia é que muitos homens conhecem apenas a mulher que precisou se encolher para que o relacionamento funcionasse. Nunca chegaram a conhecer a mulher inteira.
A que volta a estudar, empreende, reencontra amigos, ri novamente, recupera a autoestima. Não ficaram fortes depois do fim, apenas voltaram ao tamanho original.
Mas, Karina, então as pessoas fingem que são mais fracas do que são? Não necessariamente. Eu vejo que elas se doam, que é um ato de generosidade não divergir ou ceder nas escolhas que não são tão relevantes assim, ou talvez não sintam que serão aceitas, ou, simplesmente, algumas pessoas definitivamente não possuem um estilo impositivo. São muitas opções que não significam simplesmente fraqueza.
Fazemos concessões por amor, evitamos conflitos quando desejamos ter harmonia. Há inúmeras razões para alguém ir diminuindo a própria presença, e o problema não está em ceder. Todo relacionamento saudável exige concessões. O problema começa quando só um precisa encolher para que o vínculo continue existindo.
Talvez um dos maiores desafios nos relacionamentos seja impedir que qualquer pessoa precise diminuir a própria identidade para ser amada. Apenas pare de se diminuir. Amor maduro não exige versões menores de ninguém.
