A atualização da NR-1. Pela primeira vez, o sofrimento mental deixa de ser tratado como questão periférica e passa a integrar, formalmente, o campo das responsabilidades organizacionais. Ainda assim, persistem alguns hiatos inquietantes. Vou citar alguns, apenas para fins didáticos:
Historicamente, a saúde dos indivíduos foi medida apenas por parâmetros físicos e mensuráveis, enquanto o sofrimento psíquico era mantido em sigilo ou interpretado como fragilidade, inadequação ou déficit de resiliência.
A nova NR-1 rompe com essa lógica e exige o mapeamento de fatores como assédio, sobrecarga, ambiguidade de papéis e pressão por metas. Contudo, há um risco evidente de que essa exigência se reduza a um exercício burocrático, esvaziado de sentido: protocolos formais, checklists genéricos e relatórios estéreis que não alcançam a experiência concreta do trabalhador.
Outro ponto crítico é a apropriação da saúde mental pela lógica produtivista. Em muitos contextos, o cuidado psíquico é instrumentalizado como estratégia de desempenho. Programas de bem-estar são implementados não para transformar condições adoecedoras, mas para aumentar a tolerância do indivíduo a elas. O resultado é a produção de sujeitos mais adaptados ao sofrimento, e não a construção de ambientes mais saudáveis.
Permanecendo assim, a tendência de individualização do problema.
Embora a norma aponte para a responsabilidade institucional, muitas organizações seguem deslocando o foco para o sujeito, oferecendo suporte psicológico enquanto mantêm culturas organizacionais marcadas por medo, hiperexigência e invisibilidade afetiva. Cria-se uma contradição estrutural, pois o trabalhador é convocado a se cuidar em um ambiente que permanece alheio a suas demandas internas.
Temos um desafio gigante. A efetividade da NR-1 depende de uma verdadeira revisão das práticas de gestão, da escuta qualificada dos trabalhadores e da disposição para enfrentar aquilo que a norma evidencia: que determinadas formas de organização do trabalho são, por si, produtoras de sofrimento.
O que isso implica?
No mínimo, questionar modelos baseados em metas inalcançáveis, jornadas extensas e disponibilidade permanente. E, sobretudo, olhar para o indivíduo como um ser amplo, que necessita e aspira a muito mais do que apenas trabalhar e sobreviver a obrigações esvaziadas de sentido — um ser que demanda espaço para a criação, para o vínculo, para a experiência estética e para a construção de um futuro com harmonia, dignidade e verdadeira tranquilidade.
