Dormir bem não resolve todos os nossos problemas, mas certamente dormir mal piora todos eles. Tenho fortes razões para o alerta.
Dormir não é um luxo, nem um prêmio por um dia produtivo. É necessidade biológica fundamental e, mesmo com muita informação a respeito, as pessoas ainda tratam o descanso como se fosse negociável.
Cortamos horas de sono para trabalhar, estudar, cuidar dos filhos ou simplesmente continuar rolando a tela do celular. O organismo se ressente e cobra em perda metabólica. Toda noite mal dormida será cobrada com juros altos.
Uma única noite ruim já reduz atenção, memória, raciocínio e regulação das emoções. Estudos mostram que a privação de sono torna a amígdala cerebral — nosso centro de alerta emocional — muito mais reativa, enquanto enfraquece a comunicação com a área do córtex pré-frontal, responsável pela empatia, autocontrole e ponderação.
É por isso que, depois de dormir mal, pequenas frustrações parecem enormes, a crítica machuca mais. O trânsito irrita como não deveria. Ansiedade em alta, paciência em baixa, alegria rolando montanha abaixo... Curiosamente, o sono ruim não apenas aumenta emoções negativas; ele também reduz nossa capacidade de experimentar as positivas. O mundo não fica apenas mais pesado, fica menos colorido.
E mais: elevação do cortisol, favorecimento da inflamação metabólica, aumento da resistência à insulina, dos hormônios da fome e redução de GH e da recuperação muscular. A pressão arterial tende a subir, o sistema imunológico baixa eficiência e a percepção de dor aumenta. Não é coincidência que pessoas cronicamente privadas de sono apresentem maior risco de doenças cardiovasculares, obesidade, transtornos do humor e depressão.
Considero que o aspecto mais importante seja o de que a insônia revele também a falta de qualidade da vida. Nossas pendências emocionais estão sempre lá. Levamos para a cama conversas não encerradas, preocupações não elaboradas, medos futuros, excesso de estímulos, jornadas intermináveis e a crença de que descansar é perder tempo.
O cérebro não consegue sustentar saúde emocional quando está biologicamente exausto. Muitas pessoas, ao procurar por terapia, vão encontrar como pré-requisito para o equilíbrio emocional investigar como tem sido o sono, pois ele contribui para a perda da motivação, da tolerância ou da capacidade de sentir prazer.
Então, repito: dormir bem não resolve todos os problemas, mas dormir mal amplifica quase todos eles.
Talvez cuidar do sono seja uma das formas mais poderosas de cuidar da própria vida. Até porque não se trata de estar com a mente descansada para enxergar um mundo perfeito, mas ela simplesmente volta a enxergá-lo com a medida real das coisas.
