Uma nova forma de escravidão, mas disfarçada em culto por performance. Deixemos de ser ingênuos. Produzir, dar conta, superar, aguentar, otimizar. A versão premium de nós mesmos.
Errar virou falha moral.
Descansar virou suspeita. Os homens aprenderam que demonstrar cansaço é fraqueza, que hesitar é incompetência, que precisar de ajuda é retroceder. Cresceram sendo valorizados pelo que produzem.
E, para as mulheres, sempre foi exigida a maturidade precoce, a capacidade de resolver conflitos, insatisfações... a habilidade de sustentar os que estão à sua volta. Não basta sermos competentes, precisamos ser fortes.
Quem lucra com isso?
O problema em se afirmar pela força ou pelo desempenho é internalizarmos que amor e admiração são proporcionais à eficiência. Força vira armadura, isolamento.
Nesse cenário, o erro não é apenas um equívoco, é ameaça à identidade. A vergonha se instala porque, no íntimo, não é “eu errei”, mas “eu sou o erro". Portanto, não posso falhar. Desse sentimento surge a autocobrança implacável, o perfeccionismo que sufoca, a dificuldade de relaxar sem culpa. E a extrema solidão.
Quando a identidade se organiza exclusivamente em torno da competência, os vínculos ficam empobrecidos. Quem sempre resolve, raramente é cuidado. Quem não se permite ser visto em sua fragilidade, não se permite intimidade real.
O culto à performance nos torna escravos de um sistema que quer produção, números e exaustão diária. Acordemos.
Humanizar o erro não significa abandonar responsabilidades e tampouco permitir-se o descaso, e sim, reconhecer que limite não é fracasso, que cansaço não é incapacidade, que precisar de ajuda é parte essencial da vida. Vulnerabilidade não anula força – aprofunda.
Talvez o gesto mais revolucionário hoje não seja provar que somos capazes, mas admitir que não precisamos sustentar tudo sozinhos. Errar não diminui ninguém; amplia a consciência. Somos falhos e isso não nos reduz – nos humaniza. É na aceitação da própria incompletude que nasce uma força mais madura, que não oprime, não compete, não exige máscaras. Quando aceitarmos isso com naturalidade, poderemos crescer sem nos violentar, sustentar responsabilidades sem nos abandonar e olhar para o outro com menos julgamento e mais compaixão. Porque somente quem faz as pazes com a própria fragilidade é capaz de viver com inteireza.
Karina Younan
Psicoterapeuta, mestre em ciências da saúde pela Famerp,mãe de artista e apaixonada pela vertente fenomenológica existencial
@kayounan
