Quando falamos de cultura, falamos de valores e de comportamentos. Portanto, falamos de seres humanos. E todos os principais desafios que vivemos atualmente não são necessariamente novos em sua essência. Mas são novos na intensidade e na forma que se apresentam. O conflito geracional é um exemplo bem fácil de entender nesse sentido, já que há milênios encontram-se na literatura e na filosofia textos que abordam a mesma questão ao longo do tempo. O que muda hoje no mercado de trabalho é que nunca tivemos tantas gerações trabalhando juntas. E isso faz com que os problemas relacionados a esses conflitos possam se amplificar muito se não trabalharmos adequadamente.
Recentemente participei de um evento da Sociedade Catarinense de Medicina em que foi apresentado um estudo por uma representante do ACM Jovem sobre a perspectiva do jovem médico para o futuro. E o resultado é realmente incrível e reforça na prática o que tenho trabalhado, disseminando a visão de uma cultura inovadora humanizada. Segundo a pesquisa, muitas coisas são diferentes hoje do que eram algumas décadas atrás nas aspirações e práticas médicas dos jovens, mas um ponto continua idêntico: o propósito de salvar vidas. Como isso é feito hoje, exige atualização constante e gera insegurança sobre o futuro dos próprios jovens. Mas é isso que pode unir todas as gerações em torno de algo comum para lidarem juntas com os desafios e fazer das diferenças um ponto de potencialização em vez de barreiras.
Coincidentemente, este também foi um dos temas que explorei com o especialista Mateus Magalhães em um dos encontros da comunidade Reinvente. Por ser um profissional da Gen Z, ele vive o conflito geracional não apenas como observador, mas como protagonista. Esta convivência de gerações hoje é resultado de avanços em políticas públicas e qualidade de vida, e traz consigo uma riqueza imensa de experiências, perspectivas e saberes acumulados. Mas traz também uma complexidade que a maioria das organizações ainda não aprendeu a gerir com intenção. Cada geração carrega um viés, uma criação, uma forma de enxergar o trabalho, a lealdade, o tempo, a carreira. E quando essas visões se encontram sem mediação intencional, o resultado costuma ser conflito, ruído e desperdício de potencial.
Temos discutido ao longo deste ano que Agir com Propósito exige, sobretudo, consciência. Consciência de quem somos, de quem está ao nosso lado e de como construímos pontes entre perspectivas diferentes. E foi exatamente isso que Mateus nos convidou a refletir também. Não se trata de romantizar as diferenças geracionais nem de reduzi-las a estereótipos. Trata-se de reconhecer que cada geração chegou ao mercado de trabalho moldada por contextos históricos, econômicos e culturais distintos. E que essa diversidade, quando bem liderada, é um ativo estratégico. Quando ignorada, é uma fonte constante de atrito.
E esse atrito leva a um dos grandes problemas hoje das organizações, que é o turnover: cerca de 56% dos colaboradores deixam suas empresas a cada ano, chegando a 70% em alguns setores. E um dos principais motivos está, justamente, na ausência de pertencimento, de propósito claro, de um ambiente que reconheça quem a pessoa é e o que ela precisa para crescer.
O mais importante é revermos nossa própria mentalidade sobre este tema e podermos tratar a diversidade de perspectivas que cada geração traz não como obstáculo à cultura, mas como matéria-prima dela. Que possamos criar artefatos de conexão pelo aprendizado, aproveitando toda a riqueza de saberes desenvolvida em cada geração, e fazer esta integração norteada pelo propósito que faz com que todos estejam juntos nesta mesma equipe.
