Em junho deste ano, depois de uma conversa em que compartilhei alguns desafios que estava enfrentando na liderança do agir com propósito neste ano com uma amiga especialista em gestão de pessoas, comecei a ler o livro que ela me recomendou para me ajudar nesta fase: Radical Candor, de Kim Scott, ex-executiva do Google e Apple. Li com muita dedicação porque sentia que algo precisava evoluir na minha liderança, não no que diz respeito ao propósito ou à cultura, mas na qualidade das conversas difíceis para garantirmos a liderança do agir com propósito no dia a dia de verdade. Este livro chegou na hora certa e já sinto impacto direto dos aprendizados na evolução que tenho buscado e, por isso, pretendo compartilhar aqui com vocês ao longo das próximas semanas quatro artigos aprofundando o que tenho aprendido.
O conceito central de Kim Scott é simples na forma e exigente na prática: a melhor liderança vive na interseção de duas dimensões que precisam estar presentes ao mesmo tempo. A primeira é o cuidar pessoalmente e importar-se genuinamente com as pessoas, com quem elas são, com o seu crescimento, com o que estão vivendo. A segunda é o desafiar diretamente e ter a coragem de dizer o que precisa ser dito, mesmo quando é difícil, mesmo quando desagrada, mesmo quando a conversa seria muito mais confortável se não acontecesse. Quando as duas dimensões se encontram, nasce o que ela chama de Sinceridade Radical. Uma franqueza que só funciona porque vem de quem genuinamente se importa com o outro e com a conversa.
O que me tocou ao ler o livro foi reconhecer, com honestidade, situações que vivi neste semestre. Situações em que percebia que poderia haver alguma forma de intensificar o agir com propósito, mas que para evitar gerar um problema à toa, acabei por silenciar tais percepções. Hoje percebo que o medo de criar um problema é que acaba gerando esse silenciamento e que, por fim, impede de oferecer algo que poderia ter ajudado no crescimento de alguém. É uma situação que sempre pede essa sinceridade radical como colocada no livro. E esse silenciamento não acontece por maldade, nem por descuido, mas pela armadilha mais comum da liderança humanizada que é confundir cuidado com omissão. Tratar a gentileza como razão suficiente para não ser firme numa postura que, dita com cuidado, poderia gerar crescimento para os dois lados.
O Agir com Propósito, lema que nos orienta neste ano, pede exatamente essa clareza que cultiva um olhar cuidadoso aos nossos valores no dia a dia, do certo e do errado nos combinados da nossa cultura, do alinhamento contínuo entre o que dizemos que somos e o que fazemos nas situações concretas para sermos de fato o que dizemos. E é aí que a Sinceridade Radical entra como um reforço necessário no pilar da liderança, pois ajuda a tornar realmente executável o propósito nas relações. Essa sinceridade radical é que permite que os resultados sejam alcançados não de forma coercitiva, mas de forma genuinamente inspiradora, porque existe cuidado real com as pessoas e, ao mesmo tempo, clareza real nos feedbacks.
Nas próximas semanas, pretendo explorar cada uma dessas dimensões com mais profundidade. Vou escrever um artigo inteiro para falar sobre o que significa cuidar pessoalmente de verdade e outro sobre o que é a dimensão do desafiar diretamente. E, no último artigo desta série, trarei um pouco sobre as três armadilhas que Kim Scott identifica e que, como eu mesmo experimentei, são reais e fáceis de cair. Porque o grande desafio do Agir com Propósito é exatamente esse: evoluir na qualidade das conversas, tornando-as mais fluidas, mais leves, mas também mais diretas e mais honestas para que os resultados possam ser alcançados.
