No mês de setembro, realizamos o Cegente Summit, o maior evento de desenvolvimento de líderes do noroeste paulista. O eixo temático do evento foi desenhado para nos ajudar a refletir sobre pontos essenciais para nossa liderança no contexto atual em dimensões diversas do negócio, nos convidando a uma visão mais sistêmica. Ao longo deste mês, buscarei trazer os principais insights de cada uma das palestras aqui na coluna.
Ricardo Basaglia, CEO da Michael Page no Brasil e autor do livro Lugar de Potência, abriu o Cegente Summit com um conceito extremamente relevante para a liderança contemporânea: o quociente de adaptabilidade (QA). Num mundo onde o conhecimento técnico se torna obsoleto em ciclos cada vez mais curtos, o que diferencia um líder não é mais o quanto ele sabe, mas a velocidade e a profundidade com que consegue aprender, se adaptar e se reinventar. E, para isso, ele nos convida a refletir sobre um paradoxo que é a arrogância interna, ou seja, aquela que faz alguém entrar numa sala para falar e não para ouvir, convicto de que não tem nada a aprender com o outro. Ricardo deixa claro que essa arrogância interna é o maior inimigo do QA. É ela que congela o líder no que já sabe e o impede de chegar onde poderia ir.
Esse é um ponto que está muito alinhado com tudo o que desenvolvemos no pilar de Liderança na Cultura Inovadora Humanizada, já que ela só existe quando o líder está genuinamente aberto ao outro, exercitando a escuta ativa em níveis de profundidade que ouve muitas vezes até o silêncio e o que não foi dito diretamente. Ouvir para entender a perspectiva do outro, aprender a partir desta perspectiva e construir alinhamento e desenvolvimento quando necessário. Ricardo deu o exemplo, parafraseando Platão, dizendo que devemos ser como o ouro, que não se contamina pelo ambiente tóxico, não escurece como os outros metais. O líder que mantém a clareza interna mesmo em ambientes adversos não é aquele que ignora o contexto, mas sim aquele que não deixa que o contexto defina quem ele é.
Ele também nos apresentou uma fórmula muito interessante para a performance, que também se alinha muito à visão do mapa de navegação de desenvolvimento da equipe no Pilar Pessoas: performance é igual a talento menos interferência. O papel do líder, nessa equação, não é ser o mais talentoso da sala. É potencializar os talentos ao redor, reduzindo as interferências que impedem cada pessoa de operar no seu melhor nível. Isso muda completamente a pergunta que o líder precisa fazer todos os dias para si mesmo, pois deixa de ser "o que eu preciso fazer?" e passa a ser "o que está impedindo minha equipe de performar?" E essa mudança de perspectiva é, na minha leitura, o coração de uma liderança que verdadeiramente serve ao coletivo e permite o agir com propósito na liderança.
Ricardo também reforçou algo que já sabemos, mas que nem sempre damos bola e que é essencial para a performance da equipe, quando aponta que a cultura é formada pelos piores comportamentos que se tolera e não pelo que está escrito no manual de valores, nem pelo que o líder diz. Mas pelo limite que se estabelece na prática: o que se contrata, o que se promove, o que se demite, o que se deixa passar em silêncio. E nos dá uma dica muito valiosa de invertermos o que geralmente acontece nas culturas de baixa performance, em que se dedica pouca atenção aos talentos e atenção demasiada aos colaboradores-problema. Que possamos passar a dar atenção aos talentos e a ter coragem para estabelecer os limites com clareza para evitarmos conviver com os que só geram problemas.
Que possamos liderar com a consciência de que toda organização cresce na medida da consciência do seu líder. Que tenhamos a coragem de fazer as perguntas difíceis sobre nós mesmos, sobre nossa agenda, sobre o que toleramos e o que celebramos. Porque felicidade e liderança, como Ricardo nos lembrou ao final, têm algo fundamental em comum: ambas são sobre intencionalidade. E intencionalidade, no fundo, é exatamente o que significa agir com propósito.
