Temos falado bastante sobre a habilidade de integrarmos a dimensão do resultado com a dimensão do propósito este ano, e não é um desafio tão simples quanto parece. Na verdade, a integração é sempre complexa, pois exige incluir e acomodar algo novo dentro do que já existe. Com a transformação que estamos passando com a utilização da Inteligência Artificial, também surge o desafio para a liderança de fazer mais esta integração para que a IA venha de fato a potencializar a inteligência humana. A analogia com o líder centauro, metade animal, metade homem, foi proposta por Paula Camara, especialista em RH e autora de um capítulo sobre este tema publicado no livro CompartilhaRH, em um bate-papo recente que tivemos na Comunidade Reinvente.
A provocação central de Paula é algo que já sabemos, pois a inteligência artificial não substitui os líderes. Mas os líderes que não souberem se potencializar com a IA serão substituídos por líderes que souberem. A IA como ferramenta de apoio exige, paradoxalmente, mais desenvolvimento humano e não menos, pois precisamos reforçar nosso pensamento crítico e transformar o resultado da interação com a IA em conhecimento aplicável.
Um dos casos que Paula compartilhou conosco ocorreu em uma fábrica em que máquinas de extrusão paravam por uma hora e meia a cada turno sem que ninguém soubesse exatamente por quê. A IA identificou que o problema estava na limpeza necessária na máquina entre turnos, um padrão que não tinha sido percebido pelos humanos que olhavam os dados isoladamente, mas que ficou claro quando os dados foram conectados e analisados em conjunto. É interessante percebermos o que este caso nos revela sobre liderança: os maiores problemas operacionais raramente estão onde estamos olhando, mas sim nas conexões entre as partes. E é exatamente aí que a visão sistêmica faz toda a diferença.
Acho importante destacar uma pergunta importante que Paula respondeu nesta conversa: o que se torna mais valioso no ser humano quando a IA executa tarefas cada vez mais complexas? A resposta, para mim, é clara: escuta ativa, empatia, leitura de contexto e a capacidade de transformar dados em decisões que considerem o ser humano por trás dos números. O trabalho remoto trouxe uma camada adicional de desafio para minha liderança e tenho percebido o quanto o tecnológico pode se tornar transacional se não estivermos atentos a essa integração. A distância física não é apenas um desafio logístico, mas é um desafio de vínculo. Equipes remotas precisam de intenção redobrada para manter conexão, confiança e senso de pertencimento. E, ao incluirmos mais tecnologia, precisamos estar sempre atentos, buscando também essa postura que ela nos convida a ter como líderes centauros.
Que busquemos a cada dia integrar nossa liderança. Não apenas no sentido de dominar ferramentas tecnológicas, mas no sentido de integrar com sabedoria o que a tecnologia amplia e o que a humanidade oferece de insubstituível. Porque agir com propósito na era da inteligência artificial é, acima de tudo, saber que os dados informam, mas as pessoas agem. E que nenhum algoritmo substituirá a capacidade de olhar para alguém, entender o que está por trás do número e escolher agir com humanidade.
