Uma das perguntas que mais ouço ao fazer palestras sobre cultura inovadora humanizada é com relação aos erros no processo de inovação. É sempre um desafio enorme lidarmos com o erro ainda na maioria das culturas organizacionais. À medida que tenho explorado o tema do Agir com Propósito e liderado a estratégia de expansão com foco na cultura, percebo o quanto é ainda mais desafiador esse tema. Mesmo depois que vencemos o medo de errar e temos um ambiente psicologicamente seguro para lidar com os erros, o ser humano parece não se permitir aceitar quando está errado.
Para me aprofundar um pouco mais neste assunto, recorri ao livro de Carol Travis e Elliot Aronson “Mistakes were made (but not by me)” cujo título já explora esse desafio ao afirmar que alguém errou, mas que não fui eu. Essa resistência em assumir o erro é muito mais profundo do que imaginava. Os autores exploram diversos estudos psicológicos para entender a questão da dissonância cognitiva que nos faz justificar nossos próprios erros para nós mesmos como sendo sempre acertos.
A dissonância cognitiva é aquele desconforto que sentimos dentro de nós quando o que fazemos entra em conflito com nossos valores ou com a nossa autoimagem. Para lidar com esse desconforto e amenizá-lo, nosso cérebro possui um mecanismo praticamente automático de autoproteção que justifica e racionaliza o erro trazendo sempre uma interpretação de que no fim fizemos o certo.
O que mais me chamou a atenção do livro para o exercício da liderança em uma cultura inovadora humanizada é que se conseguir criar um ambiente em que seja possível errar e experimentar para podermos aprender com os erros e inovarmos já é difícil, conseguir um ambiente em que todos possam e queiram, principalmente, assumir os próprios erros é ainda mais desafiador. Isso porque precisaremos que a cultura seja tão forte que conscientemente ajude a lidar com esse mecanismo automático da dissonância cognitiva descrita pelos autores.
O aumento da complexidade nos negócios tem sido debatido por muitos especialistas, pois é cada vez mais desafiador conquistar os resultados. E com a automação das tarefas repetidas, precisamos de lidar cada vez mais com as complexidades humanas para darmos conta das complexidades do negócio. Entendermos que ninguém quer estar errado por natureza ajuda a destravar conversas e a cultivar um ambiente em que possamos ser pelo menos honestos com os próprios erros.
Ainda não tenho tanta profundidade no tema para contribuir, mas vou seguir explorando este tema com minha própria equipe ao longo do ano à medida que avançamos nosso próprio Agir com Propósito. Sinto que quanto mais força a nossa cultura tiver para lidar abertamente com os erros no seu ambiente, mais ela se fortalece e mais os resultados se tornam possíveis de serem atingidos. Muitos dos fracassos organizacionais estão mais relacionados à essa dificuldade de lidarmos abertamente com os erros e lidarmos com essa dissonância do que com falta de competência em si. Mas para preservar nossa autoimagem de profissionais competentes, racionalizamos e empurramos o erro para outro lugar.
O nosso autodesenvolvimento pode nos ajudar a lidar melhor com isso internamente para que, como líderes, possamos estimular nossa equipe a fazer esse mesmo movimento. O desafio é enorme e possui mais camadas do que imaginava, mas toda e qualquer cultura se fortalece evoluindo no dia-a-dia e assumindo justamente seus próprios erros nesse processo de evolução.
