Dando sequência ao aprofundamento do desafio deste ano de potencializar a minha liderança pela força do Agir com Propósito, quis abordar uma questão complexa, mas, ao mesmo tempo, essencial no trabalho de uma cultura inovadora humanizada: a conexão do propósito individual do profissional com o propósito coletivo da empresa em que ele trabalha. Uma pergunta recorrente que me fazem é justamente como o propósito individual pode se realizar dentro de um propósito coletivo. Para me ajudar a aprofundar este tema, bati um papo na Comunidade Reinvente com Francine Tisiam, que integra filosofia clássica, visão sistêmica e neurociência no seu trabalho de desenvolvimento humano e organizacional.
Logo de cara já percebi uma semelhança muito interessante na abordagem pela qual ela também escolhe lidar com os desafios e complexidades do mundo do trabalho atual, que é recorrer aos clássicos antigos. A raiz da maioria dos problemas que mais importa continua bem embasada nos textos antigos. Ela abre fazendo referência à República de Platão, em que ele propõe que um sistema social só encontra harmonia e crescimento quando cada parte conhece a sua natureza e consegue expressá-la em benefício do coletivo. Não é sobre todos pensarem igual, nem sobre todos perseguirem o mesmo propósito com o mesmo ardor. É sobre cada um ocupar o seu lugar, com o que tem de mais genuíno, contribuindo para um todo que é maior do que cada parte isolada. E convenhamos que é um grande desafio seguirmos crescendo, mantendo a harmonia nas pessoas, nos processos e nos resultados. Por isso, esse alerta é muito importante. O quanto, de fato, desenvolvemos as pessoas para reconhecerem sua própria natureza, para que consigam expressá-la em benefício do coletivo? Ainda hoje, investir em autoconhecimento não faz parte da estratégia de desenvolvimento da grande maioria dos profissionais.
Essa visão da empresa como um sistema é essencial para entendermos como conectamos nosso propósito individual com o coletivo da empresa. Fazemos parte deste sistema e ele só opera funcionalmente se cada parte dele estiver no seu devido lugar. A metáfora que ela nos traz para ajudar a compreender melhor essa questão é a de um relógio. Ao desmontar todas as peças de um relógio e colocá-las sobre a mesa, elas continuam sendo as mesmas peças de qualidade. Mas o relógio deixa de existir. Porque o que faz um sistema funcionar não é a qualidade das partes isoladas, mas a qualidade das relações entre elas. Isso vale para uma equipe, para uma cultura, para uma organização inteira. E é justamente por isso que investir em relações não é custo de bem-estar, mas a condição estrutural para que qualquer propósito seja vivido na prática.
Ao liderarmos pelo propósito, é importante termos consciência sobre a raiz dos problemas que precisamos de fato resolver para que o agir com propósito aconteça. Falta de engajamento, burnout, ansiedade, ausência de criatividade são apenas sinais, não causas do problema. A causa verdadeira costuma ser a incoerência dentro do sistema. Quando o propósito declarado pela organização não se traduz nas decisões do dia a dia, nas relações entre as equipes, nas escolhas de liderança, há o enfraquecimento do vínculo. E quando isso acontece, é importante agirmos para reforçar nossa coerência institucional, relacional e individual ao mesmo tempo.
Que possamos construir organizações em que o propósito não seja apenas frases na parede, mas um sistema vivo de coerências entre o que dizemos, o que decidimos e o que as pessoas efetivamente vivem. Porque, como Francine nos lembrou, toda transformação sistêmica começa nas pessoas. E o desenvolvimento humano não é segundo plano da estratégia. É a condição fundamental para que qualquer estratégia seja sustentável.
