A singularidade humana
O que nos torna únicos? A resposta a tal questão tem sido alvo de intensos debates. Em seu artigo ‘The prefrontal cortex: from monkey to man’, o neurocientista Richard Levy destaca três grandes mudanças cognitivas que nos diferenciam dos demais animais: maior integração de experiências passadas e projeções futuras; maior capacidade de relacionar dados descontínuos ou distantes; e maior capacidade de abstração. Tais habilidades exigem a integridade do córtex cerebral, camada mais externa do cérebro responsável por funções cognitivas complexas, como percepção, atenção, consciência, pensamento, memória e linguagem. Essas funções estão associadas a outra diferença marcante: o tamanho do cérebro humano.
Entre os animais, os primatas apresentam os maiores cérebros em relação ao tamanho do corpo. No entanto, o humano é 3,5 vezes maior do que o dos chimpanzés, com os quais compartilhamos muitos traços comportamentais e cognitivos. Esse cérebro enorme, sete vezes maior do que o necessário para o tamanho do corpo, consome 25% da energia necessária para nossa manutenção diária. Ademais, dos seus 86 bilhões de neurônios, 16 bilhões encontram-se no córtex cerebral, segundo a neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel, em ‘The Evolution of Human Capabilities and Abilities’. Esse é o maior número de neurônios corticais entre os mamíferos.
Várias hipóteses foram propostas para explicar esse aumento. A de Richard Wrangham, exposta no livro ‘Catching fire: how cooking made us human’, fundamenta-se em duas inovações: o domínio do fogo e o cozimento. Inicialmente, nossos ancestrais controlaram o fogo para obter luz e calor, mas, há cerca de 400 mil anos, descobriram que podiam usá-lo para cozinhar. Esse processo acelera a digestão do bolo alimentar, resultando em maior produção de calorias. Com mais energia disponível, o cérebro humano triplicou de tamanho, aumentando a quantidade de neurônios corticais.
Isso significa que o “simples" ato de cozinhar os alimentos pode ter sido o gatilho para o desenvolvimento das capacidades cognitivas que temos hoje, muitas das quais são semelhantes ou superiores em grau em relação às dos outros animais, enquanto outras são exclusivas. Dentre as últimas, destacam-se a linguagem, a educação e a cultura.
Dados genômicos publicados por Shigeru Miyagawa e coautores em 'Frontiers of Psychology' indicam que a linguagem humana surgiu há 135 mil anos, tendo dado ao Homo sapiens uma vantagem crucial ao ampliar a cooperação, a comunicação e a transmissão do conhecimento. Ao longo das cerca de 9 mil gerações passadas desde a nossa origem, há aproximadamente 200 mil anos, assimilamos o conhecimento adquirido por aqueles que vieram antes de nós, o ampliamos e repassamos adiante. A interação entre cultura e tecnologia incrementou inovações e permitiu a evolução de arranjos sociais complexos e altamente cooperativos — muito diferentes daqueles presentes em qualquer outra espécie.
Parafraseando Robert Boyd, em ‘The Evolution of Human Uniqueness’: “educação e cultura nos tornaram pontos fora da curva no mundo natural, mas, sem dúvida, ainda fazemos parte dele”.