“A Meia-Irmã Feia” (2025), de Emilie Blichfeldt, opera uma inversão brutal: se o terror clássico inflige violência ao corpo para chocar, aqui o corpo é o próprio agente da violência, num processo socialmente sancionado de automutilação. Blichfeldt utiliza a estrutura de "Cinderela" como esqueleto narrativo para dissecar a fábula contemporânea mais perversa: a beleza como projeto de dor e a perfeição como armadilha.
O filme acompanha Elvira e sua mãe Rebekka numa espiral de procedimentos cruéis para alcançar o príncipe. Filmadas com frieza, as cenas de modificação corporal são apresentadas sem trilha sonora dramática ou ângulos expressionistas. A câmera observa, fixa e impávida, como um cirurgião. Esse distanciamento é o que torna o horror eficaz: ele nos força a encarar a violência como banalidade. A maldade da madrasta é substituída pelo bisturi, injeções, vermes — ferramentas igualmente aterrorizantes em sua materialidade banal.
A inversão de papéis é a base de sua crítica afiada. Agnes, a Cinderela, não é vítima, mas uma figura cínica que despreza as irmãs. Esse deslocamento expõe o caráter da busca pela perfeição: não se trata de bondade versus maldade, mas de uma luta por mobilidade social num sistema onde o corpo da mulher é a última moeda de troca. A obsessão de Rebekka e Elvira não nasce da vaidade, mas do desespero financeiro. O príncipe é, literalmente, o única plano de carreira disponível. O horror, portanto, é social: é o sistema que transforma corpos em portfólios.
O filme transcende a fábula e espelha o patológico. O "surrealismo" das cenas de automutilação é, na verdade, um realismo deslocado. Cortar os dedos para caber num sapato é a metáfora literal de procedimentos reais de redução de costelas, alongamento de ossos ou raspagem da mandíbula. A "tênia quilométrica" ecoa os suplementos perigosos do mercado do emagrecimento. Blichfeldt toma a linguagem simbólica do conto de fadas e a rematerializa em procedimentos concretos, demonstrando como a violência dos padrões estéticos não é metafórica, mas visceralmente física.
A evolução de Elvira, da inocência à obsessão, segue a lógica cruel de um vício. A cirurgia bem-sucedida demanda um novo "defeito" a ser corrigido. O filme captura com precisão a dinâmica da insatisfação alimentada pelas redes sociais e a indústria da beleza, onde a perfeição vive em em fuga. O filmes se junta a Cisne Negro e Pearl onde a busca pelo ideal culmina na dissolução do eu. Em “A Meia Irmã Feia”, porém, a dissolução não é apenas psicológica; é de carne sendo literalmente remodelada.
Ao usar o horror corporal como ferramenta diagnóstica. O filme não nos permite o alívio de considerar sua violência como fantasia. Ao justapor a frieza cirúrgica de sua encenação com a realidade dos 3.123.758 procedimentos estéticos realizados no Brasil em 2024 (ISAPS-2024), o filme obriga o espectador a um reconhecimento incômodo: a madrasta má não é um arquétipo do passado. Ela habita o discurso publicitário, o algoritmo das redes sociais e o auto-ódio internalizado. O horror do filme não está nos procedimentos, mas na pergunta que ele deixa ecoando: em qual ponto de nossa trajetória também começamos a cortar nossos próprios dedos? Você pode assistir “A Meia-Irmã Feia” nas plataformas Mubi ou Amazon Prime Video.
