Walk the Talk é o nome do livro de Carolyn Taylor que aborda a cultura através do exemplo. Como é um conceito estruturante do trabalho da liderança na cultura inovadora humanizada, este também foi o tema da discussão com o especialista Angel Rothen em um dos encontros da Comunidade Reinvente. No sentido literal, walk the talk seria você fazer acontecer o que é falado, ou seja, transformar o discurso em realidade. Ao falarmos de propósito, muitas vezes já se gera uma descrença imediata, pois, o mais comum, é ser apenas um discurso que acaba não se materializando na prática. E isso enfraquece toda e qualquer tentativa de se pautar pelo quadro de missão, visão e valores para engajar a própria equipe. Mas quando o discurso se torna realidade, a equipe percebe e acaba ajustando os comportamentos para que a cultura possa representar o que de fato está na parede.
Um ponto bem interessante abordado por Angel em sua fala é justamente a questão da agenda da liderança. Sinceramente, nunca havia refletido sobre algo tão simples, mas que ao mesmo tempo carrega tanto significado. A pergunta é simples: ao verificar sua agenda e todos os compromissos e tarefas da sua rotina semanal, o quanto o propósito se torna visível por estas atividades? Possivelmente, pode ser que descubramos que ações que poderiam reforçar nosso propósito não ganham espaço de verdade na agenda. Liderar pelo propósito, como já mencionei em vários outros artigos aqui, tem mais a ver com o exemplo que damos como líderes do que simplesmente com o que falamos. Portanto, revisitar nossa agenda e buscar atividades que representem nossos artefatos da cultura e nossa conexão com o nosso propósito é uma atividade simples, mas que pode contribuir muito para que o propósito comece a deixar de ser discurso e se torne cultura de verdade.
É nessa simplicidade do walk the talk que ganhamos a oportunidade de nos desenvolvermos o tempo todo como líderes, pois ao buscarmos nos tornarmos um exemplo dos comportamentos que queremos ver em nossa equipe, ficamos mais atentos às incoerências normais em qualquer ser humano e percebemos a distância sempre existente entre o que desejamos ser e o que conseguimos ser de verdade naquele momento. Quanto mais conscientes estamos dessa distância natural, mais trabalhamos para encurtá-la e torná-la menos sensível ou perceptível. Consequentemente, mais coerência conquistamos entre o que falamos e demandamos e o que fazemos na prática, gerando consistência para que o propósito vire cultura de verdade. Se falamos que queremos uma equipe aberta aos erros, mas punimos sempre que um erro acontece, não estamos de verdade atentos a nos percebermos no momento em que um erro acontece. Não há nada mais natural do que nos sentirmos incomodados quando percebemos uma falha grave. O problema não está nesse incômodo natural, mas sim na falta de percepção do incômodo e no agir automático a partir do incômodo, gerando bronca e não desenvolvimento.
Uma metáfora interessante que Angel também compartilhou para ilustrar a importância do walk the talk na liderança é a seguinte: A liderança é como o wifi. O walk the talk é o sinal. Não importa o que o líder anuncia, mas sim o que a equipe é capaz de captar. Se o sinal for fraco, a conexão pode não acontecer. Para agir pelo propósito, a equipe precisa ter confiança. E a confiança nasce justamente da consistência entre o discurso e a prática.
Agir com propósito exige consistência. Se queremos uma cultura forte, precisamos tornar visível aquilo em que acreditamos. O desafio é conciliar e integrar as demandas da cultura às prioridades que temos na liderança, porque se não tivermos agenda para fazer esse walk the talk, o agir com propósito não vira prática, mas fica apenas como uma boa intenção. E cultura de verdade se constrói no que é vivido, não no que é falado.
