Tenho pensado que desaprendemos a chegar.
Queremos voos diretos, check-in antecipado, transfer na porta e, se possível, alguém segurando uma plaquinha com nosso nome. Nada contra. Eu mesma adoro uma logística impecável. Trabalho com viagens e sei o valor quase terapêutico de encontrar um motorista depois de doze horas dentro de um avião.
Mas existe uma categoria de lugares que parece dizer: se quiser chegar até mim, vai ter que merecer um pouquinho.
A Casa Patacas, nos Lençóis Maranhenses, é assim.
Depois da estrada, vem o Rio Alegre. Depois do rio, a voadeira. Depois, ainda há areia e 4x4. Até que, em algum momento, o sinal do celular deixa de ser assunto e você percebe que está dentro dos Lençóis.
Não diante deles, mas sim dentro. E essa pequena diferença muda tudo.
Porque estamos ficando especialistas em conhecer lugares sem realmente estar neles. Fotografamos antes de olhar. Pesquisamos o restaurante durante o almoço. Mandamos o pôr do sol para alguém enquanto o próprio pôr do sol acontece na nossa frente.
Talvez por isso lugares remotos tenham adquirido um significado diferente.
Não é sobre isolamento. É sobre presença.
Na Casa Patacas, a paisagem vem acompanhada de gente. Seu Francisco, dona Rosinha, Eugênio e tantas histórias de uma família que conhece aquele território não pelo Google Maps, mas porque nasceu ali. Gente que sabe onde a duna avançou, onde a coruja fez sua toca, onde existiu uma casa e onde os antepassados estão enterrados.
De repente, você percebe que aquilo que para nós é “destino” é a vida de alguém.
E talvez seja justamente aí que uma viagem deixe de ser turismo e vire outra coisa.
Tenho cada vez menos interesse por lugares que oferecem apenas conforto e cada vez mais curiosidade pelos que oferecem contexto. Uma cama maravilhosa continua sendo maravilhosa, não precisamos romantizar perrengue. Mas o verdadeiro luxo, para mim, começa quando conforto e pertencimento conseguem sentar à mesma mesa.
É comer o pão feito ali. Ouvir uma história que não estava no roteiro. Caminhar com quem sabe ler uma paisagem onde você enxerga apenas areia. Entender que buritis, dunas, pescadores, casas e lagoas contam uma história muito anterior à nossa chegada.
Viajar sempre teve algo de deslocamento. Só que talvez tenhamos levado a palavra ao pé da letra demais. Corremos quilômetros para continuar exatamente iguais. Os lugares realmente especiais fazem o contrário. Dão trabalho para chegar. E, quando finalmente chegamos, deslocam alguma coisa dentro da gente.

