‘Cinco Vitaminas’ para combater o ‘definhamento mental’. Este é o conceito do psicólogo norte-americano Adam Grant para o chamado ‘languishing’ – estado de apatia e esvaziamento emocional que ganhou destaque nos últimos anos. Como ‘vitaminas’ para enfrentar a tristeza, a falta de entusiasmo, foco e concentração, e o modo automático que pode levar ao definhamento do cérebro, são necessárias ações que vão desde aprender algo novo e investir em vínculos afetivos até cultivar a espiritualidade, reconectar-se com um propósito e reservar tempo para o prazer.
A psiquiatra Milena Spolon explica que o ‘definhamento mental’ começa a surgir quando a pessoa percebe que não está apenas em um dia ruim ou em uma semana mais difícil, mas em um estado permanente de esgotamento. “Existe uma perda de energia mental mais constante, uma dificuldade maior de se concentrar, de tomar decisões simples e até de se envolver com coisas que antes faziam sentido”, diz.
Em quadros de ‘definhamento mental’, segundo a psiquiatra, pacientes relatam sensação de apatia, como se estivessem seguindo a vida no automático, com menos interesse pelas relações e pelas atividades do dia a dia. “E, diferente de uma fase ruim, esse estado não melhora com descanso ou com uma pausa no fim de semana”, orienta.
De acordo com Milena Spolon, em muitos casos o declínio está relacionado a um estado de estresse crônico, que altera sistemas importantes do cérebro ligados à motivação, desregulando serotonina, noradrenalina, dopamina e a resposta ao estresse, como o eixo do cortisol.
Diagnóstico
A psiquiatra ressalta que, antes de tudo, é importante destacar que o cansaço mental constante nunca deve ser normalizado. “Isso porque diversas pessoas vivem no automático e já se acostumaram a funcionar no cansaço, com sobrecarga, o que acaba mascarando sinais importantes”, orienta.
Alterações no sono, irritabilidade, isolamento e dificuldade de manter a rotina são sinais que, segundo a médica, merecem total atenção. “Quando existe essa suspeita, o ideal é buscar uma avaliação profissional. Quanto antes isso é observado, mais simples costuma ser a condução. Com intervenções precoces, podemos reduzir o risco de evolução para quadros mais graves, como a depressão”, explica.
A médica afirma que o termo ‘definhamento mental’ não é um diagnóstico formal. Na prática clínica, segundo a psiquiatra, o conjunto de sintomas costuma estar associado a quadros como depressão, ansiedade, síndrome de burnout (esgotamento) ou transtornos de adaptação. “O diagnóstico é feito a partir de uma avaliação clínica detalhada, entendendo não só os sintomas, mas o contexto de vida da pessoa, a rotina, os fatores de estresse e também possíveis causas físicas, como alterações hormonais ou deficiências nutricionais”, explica.
Já o tratamento, de acordo com a médica, vai depender da causa. “De forma geral, envolve psicoterapia, ajustes no estilo de vida e, em alguns casos, medicação”, ressalta. “Nesses casos, o principal objetivo é reorganizar o funcionamento mental da pessoa para garantir mais qualidade de vida”, complementa.
‘Cinco vitaminas’
Pelo conceito de Adam Grant, as ‘cinco vitaminas’ contra o ‘definhamento mental’ – como aprender algo, investir em relacionamentos e em espiritualidade, encontrar um propósito e reservar tempo para diversão – são antídotos contra o estado constante de cansaço e esgotamento. A médica geriatra da Atenção Integral à Saúde da Unimed Rio Preto, Lívia Saes Vasques, acrescenta ainda a importância da atividade física, que também ajuda no humor, no sono, na atenção e na memória. “Em geriatria, não dá para separar o corpo do cérebro. O cérebro saudável também depende de um corpo em movimento”, ressalta.
Entre as ‘vitaminas’, a geriatra reforça a importância de aprender algo novo, como um idioma, tocar um instrumento, cozinhar algo diferente ou lidar com tecnologia. “O aprendizado ajuda a combater a apatia e a sensação de estagnação. Aprender algo novo quebra a repetição mental”, explica. Segundo Lívia Vasques, quando a pessoa entra em um ciclo muito previsível, o cérebro tende a funcionar em modo automático. “Isso pode aumentar a sensação de vazio, de apatia e de perda de vitalidade. Já o aprendizado ativa a curiosidade, desafia o cérebro a criar novos caminhos e conexões, além de estimular a sensação de recompensa e progresso”, reforça.
Sobre a importância de investir em relacionamentos, a geriatra afirma que a recomendação é fortalecer vínculos. “Contato não é a mesma coisa que vínculo. A hiperconexão digital aumentou a quantidade de interação, mas não a profundidade, a reciprocidade e o pertencimento. O cérebro humano continua precisando de relações”, explica. O isolamento social e a solidão, segundo a especialista, estão associados a pior desempenho cognitivo, pior humor e pior qualidade de vida, inclusive em estudos com a população idosa brasileira. “Essa ‘vitamina’, baseada na presença do afeto e da troca emocional, também protege a mente”, afirma.
A espiritualidade também protege o cérebro. “A espiritualidade não é obrigatoriamente religião. Pode e deve ser entendida de forma mais ampla. Mas, na prática clínica, o mais importante é: o que me sustenta? O que dá significado à minha vida? Para alguns, isso pode vir da religião; para outros, da natureza, da meditação, da comunidade, do cuidado com a família, da arte ou do voluntariado”, explica. Trata-se de uma ‘vitamina’ que, de acordo com a geriatra, protege contra o vazio existencial, a desesperança e o retraimento psíquico.

