A suspeita de autismo na infância costuma ser acompanhada por sentimentos de dúvida, medo e insegurança nas famílias. Em muitos casos, os primeiros sinais aparecem de forma sutil, no dia a dia da criança, exigindo atenção cuidadosa de pais e cuidadores. Entre os comportamentos que mais despertam alerta estão a ausência ou pouca troca de olhares, a falta de gestos comunicativos como apontar, dificuldades na interação social, atraso no desenvolvimento da fala e comportamentos repetitivos.
Dados do Censo Demográfico 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE), ajudam a dimensionar o cenário do Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Brasil. Segundo o levantamento, 2,4 milhões de brasileiros declararam ter diagnóstico de autismo feito por um profissional de saúde, o que representa cerca de 1,2% da população. A prevalência é maior entre homens (1,5%) do que entre mulheres (0,9%). Na faixa etária entre 5 e 9 anos, a taxa chega a 2,6%, o equivalente a 1 em cada 38 crianças.
Os números mostram crescimento expressivo nos registros. Dados do Censo Escolar de 2023 apontam que o número de alunos com TEA aumentou 48% em relação ao ano anterior. Especialistas explicam que esse avanço não indica, necessariamente, um crescimento súbito da condição, mas reflete maior conscientização, ampliação do acesso aos serviços de saúde e aprimoramento dos processos diagnósticos.
O que fazer quando há suspeita
Diante da desconfiança, o principal erro é adiar a busca por ajuda. A neuropsicopedagoga Silvia Kelly Bosi, especialista em autismo e desenvolvimento infantil, destaca que a observação dos pais é um ponto-chave nesse processo. “Quando algo desperta preocupação, o ideal é iniciar o processo de avaliação. A observação cotidiana dos pais é relevante, porque eles acompanham a rotina e percebem mudanças. Qualquer sinal que foge do esperado para a idade deve ser investigado”, afirma.
O primeiro passo, segundo a especialista, costuma ser a consulta com o pediatra, que pode realizar os encaminhamentos necessários. O diagnóstico envolve uma avaliação ampla e integrada. “A avaliação é multidisciplinar, porque o desenvolvimento envolve comunicação, comportamento, cognição e interação social”, explica a neuropsicopedagoga Silvia. Entre os profissionais que podem compor esse processo estão neuropediatra, psiquiatra infantil, psicólogo, fonoaudiólogo e terapeuta ocupacional.
Linguagem como sinal de alerta
A comunicação é um dos principais marcadores do desenvolvimento infantil e, muitas vezes, o primeiro aspecto a chamar a atenção da família.
A fonoaudióloga Angelika dos Santos Scheifer, especialista em atraso de fala, reforça que o olhar deve ir além da ausência de palavras. “A ausência de palavras não é o único indicador. A falta de intenção comunicativa, como apontar para pedir algo ou para compartilhar interesse, também merece investigação. Quanto antes iniciarmos o acompanhamento, maiores são as possibilidades de avanço”, observa.
A fonoaudióloga orienta que os pais registrem comportamentos, façam vídeos curtos e anotem situações que geram preocupação, facilitando a compreensão dos profissionais durante as avaliações. A busca por informações confiáveis também é essencial para evitar diagnósticos precipitados ou baseados apenas em comparações.

