Cuidar da pele ganhou espaço na rotina de muitas pessoas. O problema começa quando a preocupação com a aparência ultrapassa os limites do autocuidado e passa a provocar ansiedade, compras frequentes de cosméticos e uma busca permanente por uma pele sem imperfeições. Nas redes sociais, esse comportamento tem sido chamado de skinorexia.
A dermatologista Gisele Basso Esteves Pires, da Unimed Araxá, explica que, embora o termo tenha se popularizado, ele não corresponde a uma condição médica oficialmente reconhecida. "A skinorexia não é um diagnóstico médico. O termo tem sido usado para descrever uma preocupação exagerada com a aparência da pele e com a própria rotina de skincare. A pessoa passa a trocar produtos com frequência, acompanha cada lançamento e tenta corrigir características absolutamente normais, como poros, linhas finas e pequenas irregularidades".
Parte dessa pressão vem das próprias redes sociais. Fotos produzidas com iluminação específica, maquiagem, filtros e recursos de edição podem criar uma imagem de pele perfeita que não corresponde à realidade. Para quem consome esse tipo de conteúdo diariamente, poros, textura e pequenas marcas naturais podem começar a ser vistos como defeitos que precisam ser eliminados.
"A pele real não vem com filtro embutido. Poros existem. Textura também. Ainda assim, essas imagens acabam se tornando referência e estimulam muitas pessoas a adotarem rotinas cada vez mais complexas", destaca a médica.
Quando o excesso prejudica a pele
A tentativa de potencializar os resultados também pode levar ao uso exagerado de produtos. É comum que, em busca de uma pele considerada perfeita, sejam combinados vários ativos, aumentada a frequência das esfoliações ou utilizados ácidos sem orientação profissional. A troca constante de cosméticos também pode dificultar a compreensão do que realmente funciona para cada pele.
O excesso pode atingir justamente a estrutura que deveria ser protegida: a barreira cutânea. Responsável por ajudar a manter a hidratação e proteger a pele contra agentes externos e irritantes, ela pode ficar comprometida quando é submetida a uma rotina agressiva. Vermelhidão, ardência, descamação e sensação de repuxamento estão entre os sinais que podem aparecer.
Há ainda outro complicador: quando vários produtos são introduzidos simultaneamente, fica mais difícil descobrir qual deles provocou uma reação. "Quando muitos produtos são introduzidos ao mesmo tempo, descobrir o responsável por uma irritação pode exigir uma verdadeira investigação. O problema nem sempre está em um único cosmético, mas na combinação entre eles", afirma a especialista.
Para Gisele, uma rotina de skincare eficaz não precisa ser extensa. O mais importante é selecionar produtos compatíveis com as necessidades de cada tipo de pele, sem transformar cada lançamento em uma necessidade. "O interesse por cosméticos pode fazer parte de uma rotina agradável de autocuidado. O problema começa quando a busca por uma pele ideal gera ansiedade, compras constantes e a sensação de que sempre falta algum produto", observa.
Menos etapas, mais consistência
A dermatologista Elisa Agrelli também chama atenção para outro efeito de uma rotina exageradamente elaborada: a dificuldade de mantê-la no cotidiano. "Rotinas muito complexas não falham só na pele. Elas falham no dia a dia. Quanto mais etapas, maior a chance de uso inconsistente, de pular passos, de errar a ordem de aplicação ou de combinar ativos que não deveriam se encontrar. E maior a chance de abandono completo da rotina depois de algumas semanas de empolgação."
Além disso, simplificar não significa abrir mão dos resultados. A regularidade tende a ser mais importante do que uma lista extensa de produtos. "E aqui está um ponto que pouca gente fala: resultado em skincare depende de continuidade. Nenhum ativo entrega o que promete se for usado por duas semanas e abandonado. E continuidade depende de três coisas simples: a rotina precisa ser tolerável para a pele, prática de executar e possível de encaixar na vida real."
Para Elisa, os efeitos do excesso também podem se acumular ao longo do tempo. A irritação persistente e a sensibilidade crescente são sinais de que a pele pode estar sendo submetida a mais estímulos do que consegue tolerar. O resultado pode ser uma barreira cutânea fragilizada — a camada mais externa da pele, responsável por reter água e proteger contra agressões — e uma inflamação contínua que, aos poucos, compromete a saúde da pele.
Nesse cenário, o autocuidado deixa de ser uma corrida em busca da perfeição e passa a exigir justamente o contrário: equilíbrio. "Em vez de acompanhar cada tendência ou acumular produtos, a proposta é construir uma rotina que possa ser mantida, respeite as características individuais e faça sentido na vida real", conclui Elisa.
