Não há empurrões, tapas ou marcas visíveis no corpo. Ainda assim, a dor existe e pode ser profunda, duradoura e devastadora. A violência psicológica é hoje a forma mais recorrente de agressão contra a mulher no Brasil e, paradoxalmente, uma das menos reconhecidas e denunciadas.
O tema voltou ao centro do debate público no fim de 2025, após a divulgação de um vídeo da modelo e influenciadora Mariana Goldfarb, exibido durante uma campanha do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MP-RJ). A ação integrou os 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher e do Racismo, iniciativa nacional voltada à conscientização sobre as múltiplas formas de violência de gênero. O vídeo de Mariana pode ser conferido no Instagram @mprj.oficial.
Na campanha, mulheres relatam experiências de abuso emocional vividas dentro de relacionamentos afetivos. Histórias que não envolvem agressão física, mas revelam comportamentos cotidianos de humilhação, controle, manipulação e desqualificação, práticas que corroem a autoestima e comprometem a saúde mental das vítimas.
Embora a ação tenha sido realizada no Rio de Janeiro, a realidade apresentada não é exclusiva das grandes capitais. Em cidades do interior, como Rio Preto, mulheres também enfrentam diariamente a violência psicológica, muitas vezes sem perceber que estão vivendo uma situação de abuso.
Diferentemente da agressão física, a violência psicológica começa raramente de forma explícita. Ela se constrói aos poucos, em comentários aparentemente inofensivos, críticas constantes, ironias, ciúmes excessivos e tentativas de controle disfarçadas de cuidado. “A violência psicológica costuma ser silenciosa e gradual, o que dificulta o reconhecimento”, explica a psicóloga cognitivo comportamental Alana Lin
No início, a mulher pode interpretar as atitudes do parceiro como preocupação ou zelo. Com o tempo, essas atitudes se transformam em controle, medo e insegurança. “Entre as condutas mais comuns estão xingamentos, humilhações, ameaças, constrangimentos, isolamento social, vigilância constante, punições emocionais, como o tratamento de silêncio, e a desvalorização contínua da mulher enquanto pessoa”, revela Alana Lin.
Segundo a legislação brasileira, esse tipo de agressão é reconhecido pela Lei Maria da Penha, que define a violência psicológica como qualquer ação que cause dano emocional e diminuição da autoestima, prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento da mulher, ou vise degradar, ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões.
Por que é tão difícil perceber?
Um dos principais obstáculos para a identificação da violência psicológica é o fato de ela não deixar marcas físicas. Além disso, muitas mulheres cresceram em contextos que naturalizam relações desiguais e comportamentos abusivos. “As mulheres não foram ensinadas a identificar sinais de abuso emocional”, afirma Luciana Crepaldi, psicóloga gestalt terapeuta e especialista em ansiedade. “Existe uma ideia equivocada de que violência só acontece quando há agressão física. Isso faz com que muitas mulheres convivam por anos com humilhações e controle sem nomear aquilo como violência.”
Outro fator relevante é a dependência emocional, frequentemente estimulada pelo próprio agressor. Ao minar a autoconfiança da mulher, ele cria um ambiente de medo, culpa e insegurança que dificulta o rompimento da relação. “Quando a mulher passa a acreditar que não é capaz, que não tem valor ou que não sobreviverá sozinha, ela se sente presa à relação. Esse é um mecanismo clássico de dominação”, afirma Luciana.

