Depois de o Brasil ser considerado livre da circulação endêmica do sarampo, 23 novos casos registrados em São Paulo neste ano mostram que o vírus continua sendo um risco, especialmente diante da queda da cobertura vacinal e da possibilidade de importação da doença por pessoas infectadas em outros países. Altamente contagioso, o sarampo pode se espalhar rapidamente entre pessoas não imunizadas e provocar complicações graves e mortes. Diante do cenário, especialistas reforçam a importância de identificar os primeiros sinais da doença e manter a vacinação atualizada.
A médica infectologista e professora do Departamento de Doenças Dermatológicas, Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp), Cassia Estofolete, explica que a erradicação do sarampo no Brasil não significa que o vírus deixou de existir no mundo. “Significa que conseguimos interromper sua circulação contínua no país”. Como a doença ainda tem transmissão em outros países, o vírus pode ser reintroduzido por pessoas infectadas e encontrar, no Brasil, pessoas não vacinadas ou com cartão incompleto. “Foi justamente essa combinação que contribuiu para o retorno do sarampo ao Brasil a partir de 2018”, diz.
A infectologista Cassia Estofolete afirma que a cobertura incompleta da vacinação é o que permite que o vírus chegue ao país e encontre condições para se espalhar. “Como o sarampo é uma doença extremamente contagiosa, quando a cobertura vacinal diminui, formam-se grupos de pessoas desprotegidas. Assim, um caso importado, que poderia permanecer isolado, pode dar origem a uma cadeia de transmissão”, explica. “Por isso, manter uma cobertura vacinal elevada é fundamental, mesmo quando o país não apresenta circulação contínua do vírus”, complementa.
Alerta
Os novos casos de sarampo no Brasil são alertas, segundo a infectologista da Famerp, Cassia Estofolete. “Eles não significam, por si só, que o sarampo voltou a circular de forma endêmica no Brasil, mas mostram que o risco de reintrodução permanece”. Segundo a médica, quanto maior o número de pessoas adequadamente vacinadas, menor a possibilidade de um caso de sarampo importado gerar uma cadeia de transmissão. “Por isso, além de investigar rapidamente cada caso, é fundamental identificar contatos e ampliar a vacinação nas áreas de maior risco”, ressalta.
Entre as estratégias para evitar uma endemia da doença, está a chamada dose zero - dose adicional da vacina tríplice viral oferecida a crianças de 6 meses a 11 meses e 29 dias. “Em 2026, essa estratégia foi adotada em municípios paulistas diante da identificação de casos e do risco epidemiológico”, explica a infectologista. “É importante destacar que ela não substitui as doses de rotina: mesmo tendo recebido a dose zero, a criança deverá receber normalmente as vacinas previstas a partir dos 12 meses de idade”, recomenda.
Sarampo
Os primeiros sinais do sarampo, segundo a médica de família no serviço de Atenção Integral à Saúde da Unimed Rio Preto, Luíza Yamanaka Marin, costumam ser febre alta, geralmente acima de 38,5 °C, acompanhada de tosse seca, irritação nos olhos, coriza e um mal-estar intenso. “Depois, surgem as manchas vermelhas na pele, que são uma característica importante da doença”, explica. A médica ressalta que, ao perceber os sintomas, principalmente quando surgem de uma vez, “é importante procurar atendimento médico para avaliação e diagnóstico”, alerta.
No início, de acordo com Luíza Yamanaka, o sarampo pode ser confundido com uma gripe ou outra virose que também provoca febre, tosse e coriza. “O que chama a atenção é a intensidade dos sintomas e, principalmente, o aparecimento das manchas vermelhas, que geralmente começam no rosto e atrás das orelhas e depois se espalham pelo restante do corpo”, orienta. “A presença de febre alta, tosse persistente, coriza intensa e conjuntivite também deve levantar a suspeita de sarampo”, completa.
Uma informação importante da médica é de que o sarampo é uma das doenças infecciosas mais contagiosas. “O vírus é transmitido pelo ar, por meio de gotículas e partículas liberadas quando a pessoa infectada tosse, espirra, fala ou até mesmo respira”, conta. Por isso, uma pessoa com sarampo pode infectar até 90% das pessoas ao redor não imunizadas. O sarampo também pode causar complicações, principalmente, em crianças pequenas. “Entre as mais conhecidas estão pneumonia, otite e encefalite, que é uma inflamação do cérebro e, em casos mais graves, pode levar à morte”, afirma.
Por isso, segundo Luíza Yamanaka, é importante não ignorar os primeiros sinais e procurar atendimento médico o quanto antes. “Além do diagnóstico e do acompanhamento adequado, a principal forma de prevenção é a vacinação”, reforça. “Manter a imunização em dia protege a própria pessoa e também ajuda a interromper a circulação do vírus, especialmente entre aqueles que são mais vulneráveis às complicações da doença”, complementa.
