Uma aposta que começa como entretenimento pode, em muitos casos, virar um transtorno conhecido como ludopatia, que pode ocupar cada vez mais a rotina, consumir dinheiro, causar conflitos e, mesmo diante dos prejuízos, parecer impossível de parar. Com as bets disponíveis 24 horas por dia na tela do celular, o transtorno do jogo ganhou uma nova dimensão e passou a ser tratado também como uma questão de saúde pública. Dados do Ministério da Saúde mostram que, entre janeiro de 2018 e maio de 2025, 10.553 atendimentos foram feitos no SUS por jogo patológico, mania de jogo e apostas – um aumento de 104% no período.
Em 2024, 57% dos atendimentos relacionados ao jogo na rede pública foram de homens e 43% de mulheres, com predominância entre 20 e 49 anos. A dimensão do problema também apareceu no 3º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (INPAD, 2023) – segundo o estudo, 25,9% dos brasileiros já haviam jogado ou apostado alguma vez na vida. Entre os jogadores, 4,4% apresentaram alto risco de vício.
O problema não está simplesmente no ato de apostar, mas na perda de controle sobre os jogos. A psicóloga clínica Mara Lúcia Madureira explica que a ludopatia, nome popular do transtorno do jogo, é uma dependência, pela qual a aposta se torna a questão central da vida. “Envolve dificuldade persistente de controlar o comportamento de jogar, apesar dos prejuízos financeiros, familiares, profissionais e emocionais.”
Segundo Mara, na dependência, a expectativa de ganho somada à imprevisibilidade da recompensa é mais poderosa do que o próprio ganho. “O efeito de ‘quase ganho’ ocorre quando o resultado parece ter ficado muito próximo da vitória e o cérebro não interpreta a rodada como uma perda, mas como sinal de que o acerto está próximo, o que aumenta a excitação e a vontade de continuar jogando, apesar de cada ciclo de aposta não ter nada a ver com o anterior”, afirma.
Na imprevisibilidade, a psicóloga explica que os pensamentos mais frequentes são “agora vai”, “estou ficando bom nisso”, “preciso recuperar o que perdi”, “se eu parar agora, vou perder a oportunidade de recuperar meu dinheiro” ou “vou jogar só o bônus” ou “só mais essa vez. O jogador compulsivo tem a ilusão de controle, acredita que é capaz de prever ou influenciar resultados, não aceita o prejuízo e ainda aumenta o valor da aposta”, ressalta.
Escolhas que, segundo Mara, são tomadas pela emoção. “São emocionais, não lógicas ou estratégicas. "Quanto maior o prejuízo, maior o desejo de continuar jogando", alerta.
Nessa lógica, os conflitos e prejuízos são iminentes. “A preocupação excessiva com as apostas, ocultação de perdas e dívidas e o tempo gasto comprometem o orçamento, as relações familiares e sociais e o desempenho profissional, levando ao estresse crônico, depressão e, em casos mais graves, ao suicídio”, alerta.
Sintomas
O médico psiquiatra e professor da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp), Érico Marques Kohl, explica que o ato de apostar ativa o sistema de recompensa do cérebro, “envolvendo principalmente circuitos relacionados à dopamina”, afirma. Os sintomas do vício em apostas, segundo o médico psiquiatra, são inúmeros: “preocupação excessiva com apostas, necessidade de apostar quantias cada vez maiores, dificuldade ou tentativas frustradas de parar”, cita.
E os sintomas não param por aí. “Irritabilidade ou inquietação quando tenta reduzir as apostas para aliviar sentimentos desagradáveis, tenta recuperar continuamente o dinheiro perdido e esconde ou mente sobre quanto está apostando. Além de comprometer relacionamentos, trabalho, estudos ou a própria situação financeira”, alerta o especialista.
O principal sinal que precisa ser levado em conta para o diagnóstico da dependência, segundo o professor, é quando a pessoa continua apostando apesar de reconhecer prejuízos. “É necessário avaliar a possibilidade de transtorno do jogo”, ressalta. Érico Marques afirma ser relativamente comum encontrar outros transtornos psiquiátricos associados ao vício em apostas. “Depressão, ansiedade, TDAH e transtornos relacionados ao uso de álcool e outras substâncias”, cita.
A associação é importante, segundo o médico da Famerp, porque impulsividade, dificuldade de controle, busca por recompensa ou o uso de apostas como tentativa de aliviar emoções negativas podem contribuir para manter o comportamento. “Além disso, as próprias consequências das apostas – como dívidas, conflitos familiares e perdas profissionais – podem agravar significativamente sintomas de ansiedade e depressão”, alerta o professor.


