A menopausa ainda é cercada por silêncios, mitos e desinformação. No entanto, falar abertamente sobre esse período é fundamental para garantir qualidade de vida, especialmente quando o assunto é saúde mental. Mais do que o fim do ciclo reprodutivo, essa fase marca uma profunda transição física, emocional e social na vida da mulher.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), até 2030 haverá cerca de 1 bilhão de pessoas vivenciando sintomas da menopausa no mundo. No Brasil, os números também chamam atenção: dados da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) indicam que aproximadamente 30 milhões de mulheres estão no climatério e na menopausa, sendo cerca de 9,2 milhões já na menopausa propriamente dita.
Um estudo recente realizado no Reino Unido reacendeu o debate sobre os impactos da menopausa na saúde mental feminina, apontando associação entre a queda hormonal e o aumento de sintomas como ansiedade, depressão, alterações cognitivas e distúrbios do sono. Apesar de os resultados ainda gerarem diferentes interpretações na comunidade médica, especialistas reforçam a importância do olhar atento.
Para a psicóloga clínica Isabela Dias, é essencial diferenciar o que faz parte da transição hormonal e o que pode indicar um transtorno emocional instalado. “A menopausa é uma fase de muitas mudanças internas e externas. Oscilações de humor são esperadas, mas quando a tristeza é persistente, há perda de prazer nas atividades, isolamento social e prejuízo funcional, é importante buscar ajuda especializada. Saúde mental não deve ser negligenciada nessa etapa”, afirma.
Ela destaca que, além da questão biológica, a menopausa frequentemente coincide com outras transformações significativas: filhos saindo de casa, mudanças na carreira, envelhecimento dos pais e reflexões sobre o próprio processo de envelhecimento. “Existe um componente simbólico muito forte. Algumas mulheres vivenciam essa fase como uma perda, da juventude, da fertilidade, de uma identidade. Trabalhar essas questões em psicoterapia é fundamental para ressignificar essa etapa como um novo ciclo e não como um fim”, acrescenta Isabela.
A psicóloga Claudia Ribeiro, especialista em terapia cognitivo-comportamental, ressalta a importância de estratégias práticas para lidar com os sintomas emocionais. “A terapia ajuda a identificar pensamentos automáticos negativos que podem se intensificar nesse período, como sensação de inutilidade ou perda de valor. Ao reestruturar essas crenças, a mulher fortalece sua autoestima e desenvolve recursos para enfrentar as mudanças com mais equilíbrio”, explica.
Segundo Claudia, intervenções psicológicas também auxiliam no manejo da ansiedade e dos distúrbios do sono. “Técnicas de respiração, higiene do sono e organização da rotina têm impacto direto no bem-estar emocional. A saúde mental na menopausa precisa ser vista de forma integrada ao cuidado médico”, completa.
Tratamento e qualidade de vida
Entre as abordagens terapêuticas está a terapia de reposição hormonal, que pode ser realizada, em casos indicados, inclusive por meio de implantes hormonais subcutâneos com hormônios bioidênticos, como estradiol, testosterona e gestrinona.
“Quando bem indicada, de forma individualizada, o estradiol, a testosterona e a gestrinona ajudam bastante a melhorar a autoestima e o bem-estar, promovem disposição física e mental, alívio da ansiedade, diminuição da instabilidade de humor, melhora da secreção vaginal, aumento da libido, redução de gordura corporal e aumento de massa muscular. Além disso, auxiliam em questões ligadas aos sintomas da depressão”, afirma Walter Pace.
A ginecologista Loreta Canivilo reforça que “não existe uma receita única. O tratamento deve ser individualizado, levando em conta sintomas, histórico de saúde e qualidade de vida da paciente”.
Ela destaca ainda a importância de quebrar o tabu. “O tabu em torno da menopausa ainda faz muitas pacientes acreditarem que os sintomas são algo com que precisam conviver em silêncio. Mas informação e acompanhamento médico adequado fazem toda a diferença para atravessar esse período com saúde e bem-estar”.
Um novo ciclo, não um fim
A menopausa é caracterizada pela interrupção definitiva da menstruação após 12 meses consecutivos sem ciclo menstrual. Ela é consequência da falência ovariana, quando os ovários reduzem de forma significativa a produção hormonal, especialmente de estrogênio, progesterona e testosterona. Antes dela, há a perimenopausa, fase de transição que pode começar entre os 40 e 50 anos, ou até antes, e durar de quatro a oito anos (podendo chegar a dez).
Ondas de calor, alterações no sono, ganho de peso, ressecamento vaginal, queda de libido e mudanças na pele e nos cabelos estão entre os sintomas mais conhecidos. Mas os impactos emocionais merecem igual atenção: irritabilidade, instabilidade de humor, lapsos de memória, apatia, ansiedade e quadros depressivos também podem surgir.
A professora de geriatria Karoline Fiorotti lembra que a menopausa não é doença, mas uma transição fisiológica. É também uma oportunidade para rever hábitos e investir em prevenção de doenças crônicas, cuidado cardiovascular, saúde óssea e equilíbrio emocional. Alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, boas relações interpessoais e acompanhamento psicológico formam a base de um cuidado integral. Como destaca a psicóloga Isabela Dias: “Envelhecer com saúde mental é um processo ativo. A menopausa pode ser uma fase de redescoberta, autonomia e fortalecimento, desde que a mulher se permita pedir ajuda e se priorizar”.

