Março é marcado mundialmente pela campanha de conscientização sobre a endometriose, conhecida como Março Amarelo, que busca ampliar a informação sobre a doença, incentivar o diagnóstico precoce e orientar mulheres sobre sintomas e tratamento. A condição afeta milhões de mulheres e ainda é considerada subdiagnosticada, muitas vezes associada a anos de dor antes de receber a devida atenção.
A endometriose ocorre quando um tecido semelhante ao endométrio, que reveste o interior do útero, cresce fora da cavidade uterina, podendo atingir órgãos como ovários, trompas, bexiga e intestino. Mesmo fora do útero, esse tecido continua respondendo aos hormônios femininos, provocando inflamação, aderências e dor. Entre os sintomas mais comuns estão cólicas menstruais intensas, dor pélvica crônica, dor durante as relações sexuais e dificuldade para engravidar.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Endometriose, a doença afeta cerca de uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva e pode estar associada a aproximadamente 30% dos casos de infertilidade feminina. Ainda assim, o diagnóstico pode levar entre sete e dez anos desde o início dos sintomas.
O atraso no diagnóstico é um dos principais desafios. Para o ginecologista Rodrigo Fernandes, existe uma cultura de normalização da dor menstrual. “A endometriose pode surgir na adolescência, mas muitas vezes só é identificada anos depois. Muitas mulheres acreditam que sentir dor intensa é normal, o que atrasa a busca por ajuda. Quanto antes investigamos, maiores são as chances de controle”, afirma.
Segundo ele, o tratamento deve ser individualizado, considerando sintomas, idade, extensão da doença e desejo de engravidar. Entre as possibilidades estão acompanhamento clínico, controle dos sintomas e, em alguns casos, preservação da fertilidade, como o congelamento de óvulos.
Dados da Anvisa mostram crescimento nesse tipo de procedimento no Brasil. Entre 2020 e 2023, o número de ciclos de congelamento de óvulos em mulheres de 35 anos quase dobrou, passando de 2.193 para 4.340. No mesmo período, o total de óvulos congelados aumentou 96,5%, refletindo maior preocupação com o planejamento reprodutivo.
A ginecologista Mariane Nadai destaca que a escolha do tratamento deve considerar diversos fatores. “A decisão entre tratamento clínico ou cirúrgico precisa levar em conta o desejo reprodutivo. Existem opções medicamentosas eficazes para controle da dor e, em alguns casos, técnicas de reprodução assistida que podem otimizar as chances de gravidez”, explica.
Do ponto de vista fisiológico, o processo menstrual segue um ciclo natural, como explica o ginecologista Alexandre Rossi. “Os hormônios estimulam o crescimento do endométrio para uma possível gestação. Quando ela não ocorre, o tecido descama e é eliminado na menstruação. Na endometriose, células semelhantes crescem fora do útero e também sangram, provocando inflamação e dor”, detalha.
Os sintomas podem variar, mas alguns sinais merecem atenção: dor menstrual incapacitante, dor que irradia para pernas ou glúteos, dificuldade para evacuar, pressão na bexiga e dificuldade de locomoção durante o período menstrual.
