Um exame de fezes feito em casa e sem necessidade de preparo intestinal passa a integrar a estratégia nacional do Sistema Único de Saúde (SUS) para rastrear câncer colorretal - um tipo de tumor que, segundo o INCA, deve acometer 53,8 mil pessoas por ano no triênio 2026-2028. O chamado Teste Imunoquímico Fecal (FIT, na sigla em inglês) identifica alterações e passa a ser o exame para rastreio e prevenção em pessoas assintomáticas entre 50 e 75 anos – cerca de 40 milhões de brasileiros e brasileiras.
O FIT detecta pequenas quantidades de sangue oculto, invisíveis a olho nu, com anticorpos específicos contra a hemoglobina humana para identificar sangue que pode ser sinal de pólipos, lesões pré-cancerígenas ou câncer no intestino. A coleta é feita em casa. Se houver sangue oculto, o paciente é encaminhado para exames complementares, como a colonoscopia, considerada o padrão-ouro para avaliação do intestino, uma vez que permite visualizar o cólon e o reto, além de retirar pólipos e evitar o câncer.
O médico proctologista da Unimed Rio Preto, Jose Newton Olivieri Franco, explica que o FIT já é utilizado há alguns anos na rede privada como estratégia de rastreamento do câncer colorretal. “O que há de novo no SUS não é propriamente a existência do exame, mas a adoção de uma estratégia nacional organizada de rastreamento populacional, ampliando o acesso a uma ferramenta que já é utilizada internacionalmente e também na prática médica privada”, afirma.
De acordo com José Newton, o novo protocolo adotado pelo SUS representa um avanço na política de prevenção e detecção precoce do câncer colorretal no Brasil e ressalta: “o rastreamento é realizado em pessoas que não apresentam sintomas, justamente para identificar precocemente alterações que possam representar um câncer ou uma lesão precursora”. O médico esclarece que um resultado de FIT positivo não significa câncer. “Significa que foi detectado sangue nas fezes e que essa pessoa precisa realizar a investigação complementar”, afirma.
O exame é importante, segundo o especialista da Unimed, pois o câncer colorretal pode ficar silencioso por bastante tempo. “O paciente pode estar desenvolvendo uma lesão sem apresentar dor, alteração do hábito intestinal ou sangramento visível”, alerta. Segundo o médico, os estudos mostram que o FIT tem boa sensibilidade e alta especificidade. “Em meta-análises, a sensibilidade para câncer colorretal fica aproximadamente na faixa de 75% a 88%, enquanto a especificidade pode chegar a cerca de 90% a 95%”, pontua.
No entanto, há também limitação: “o FIT é menos sensível para detectar adenomas avançados e algumas lesões pré-cancerígenas do que para detectar o câncer já estabelecido, por isso, um resultado negativo não significa risco zero e não substitui a avaliação individualizada”, reforça. Por isso, a colonoscopia continua sendo indispensável. “Em resumo: o FIT amplia o alcance; a colonoscopia esclarece, trata e, em muitos casos, previne o câncer”, completa.
Câncer colorretal
O chefe da disciplina de Coloproctologia da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp), professor doutor João Gomes Netinho, explica que o câncer colorretal é o câncer que ocorre no intestino grosso e reto. “É o câncer relativamente frequente porque, na nossa região Sudeste, é o segundo tipo de câncer em mulheres, depois do câncer de mama, e o segundo em homens, depois do câncer de próstata, e no mundo é o terceiro tipo mais frequente”, cita.
Segundo o professor doutor da Famerp, não há um sintoma específico que permita identificar a doença. “Não existe nenhum sintoma exclusivo que seja só do câncer, não existe. O sangramento intestinal pode acontecer em muitas situações e no câncer. A dor abdominal também. A pessoa que geralmente evacua todos os dias vai ficando com o intestino mais preso; isso pode ocorrer”, cita.
O especialista alerta para casos assintomáticos, nos quais o paciente não percebe alterações e só descobre a doença já avançada. Por isso, segundo Netinho, o rastreamento e a prevenção são fundamentais. “Pode-se dizer que é o único câncer que pode ser prevenido, porque geralmente o câncer de intestino origina-se em pólipos, mas, se for feita a identificação, são totalmente retirados para evitar a possibilidade de câncer.”
O rastreamento, segundo o especialista da Famerp, ocorre a partir dos 45 anos. Quem teve a doença na família, em especial em parentes de primeiro grau, tem mais chances de ter o tumor e deve rastrear. “Uma coisa que está chamando a atenção e que estamos vendo é que, nos últimos anos, aumentou muito a incidência de câncer colorretal em jovens. O que era raro, agora está mais frequente. Acreditamos que são fatores, principalmente alimentos ultraprocessados, que contribuem, além da falta de prevenção.”



