Celulares sempre à mão, notificações constantes e múltiplas distrações digitais passaram a fazer parte da rotina da maioria dos casais. Embora a tecnologia facilite a comunicação, o excesso de conexão virtual tem provocado um efeito colateral silencioso: a dificuldade de estar verdadeiramente presente na relação. Cada vez mais, parceiros relatam a sensação de estarem juntos fisicamente, mas emocionalmente distantes, com conversas rasas, pouca escuta e vínculos fragilizados.
Para a psicóloga Luciana Crepaldi, o impacto do uso excessivo de celulares e redes sociais na vida a dois é profundo, ainda que muitas vezes passe despercebido. “O uso excessivo de celulares e redes sociais tem impactado de forma silenciosa, porém profunda, a qualidade do vínculo emocional entre casais no dia a dia. As redes sociais apresentam recortes idealizados da vida: relacionamentos felizes, rotinas perfeitas, viagens, sorrisos e declarações de amor constantes. Essa exposição contínua cria uma falsa sensação de que ‘todos estão bem o tempo todo’, o que pode gerar comparações, frustrações e a sensação de que o próprio relacionamento está aquém do esperado”, afirma.
Segundo ela, enquanto as redes mostram uma versão editada da realidade, os vínculos reais se constroem na imperfeição do cotidiano. “Na vida real, os vínculos são construídos no cotidiano, com conversas imperfeitas, silêncios, conflitos e novos acordos. No entanto, quando grande parte da atenção está voltada para o celular, o que deveria ser presença vira ausência. Muitos casais convivem fisicamente, mas emocionalmente estão distantes: um olhando para a tela enquanto o outro espera ser ouvido”, relata Luciana.
Outro fator que pesa, de acordo com Luciana, é a lógica de urgência imposta pelo mundo digital. “Notificações constantes, mensagens que ‘precisam’ ser respondidas imediatamente e a sensação de estar sempre disponível para o mundo virtual fazem com que o parceiro, muitas vezes, fique em segundo plano. Responder alguém no celular parece urgente; escutar quem está ao nosso lado acaba sendo adiado. Esse adiamento repetido pode ser vivido como desinteresse ou falta de prioridade”, explica Luciana.
Com o tempo, esse padrão enfraquece a intimidade emocional e compromete a qualidade do vínculo. “O desafio atual dos casais não é apenas lidar com as dificuldades do relacionamento, mas também aprender a disputar atenção com telas que nunca se desligam. Reconhecer esse impacto é um passo fundamental para resgatar a presença, o diálogo e a conexão no dia a dia a dois”, completa Luciana.
A psicóloga clínica Jussara Rodrigues, com formação em Psicodrama, destaca que é possível reverter esse distanciamento a partir de atitudes simples, desde que sejam intencionais e constantes. “Através de estratégias simples, repetidas e intencionais é possível restabelecer a conexão entre o casal”, afirma. Entre as práticas, ela cita “espaços livres de telas (mesa, cama, encontros), café da manhã juntos, conversas diárias, programas semanais sem tela como caminhadas, observar a natureza, exercícios físicos, filmes, teatros, etc.”.
Jussara também chama atenção para o valor do contato físico e da escuta qualificada no fortalecimento do vínculo. Contato físico consciente (mão no ombro ao ouvir algo difícil, abraço demorado após consentimento, sentar próximo em silêncio) e escuta ativa, ouvir o outro com presença real, estar emocionalmente disponível e interessado em compreender o que a pessoa está vivendo sem julgar, corrigir, interromper ou antecipar respostas são apontados como essenciais. Para ela, o uso consciente do celular, ou seja, utilizar o aparelho com intenção, limite e presença. “Presença é o maior antídoto para a hiperconexão”.
No equilíbrio entre tecnologia e relação, a psicóloga ressalta a importância de acordos claros. “Uma das formas é ter menos tempo de tela e mais qualidade de presença, acordos claros e intenção consciente”, orienta Jussara. Entre as dicas, estão: revisar acordos ao longo do tempo, conversar sobre o que cada um considera uso excessivo e diferenciar o uso funcional do uso de fuga, muitas vezes o celular é usado para aliviar ansiedade, evitar conversas difíceis e preencher vazios. Ela alerta: “Nem todo uso de tecnologia é problema, o problema é quando a tecnologia vira anestesia emocional”.
Jussara também observa que o uso inadequado das redes sociais pode aumentar conflitos. “Às vezes as pessoas postam para mandar recados, quando estão com raiva, mudando a frase no WhatsApp (vira uma indireta). O uso inadequado das redes sociais pode levar a aumento de discussões e desentendimentos nos relacionamentos. Isso aumenta muito quando o casal não estabelece o que pode ou não pode ser postado nas redes sociais a respeito da intimidade de cada um”.
Por outro lado, a psicóloga Jussara pondera que as redes podem ser usadas de forma saudável para demonstrações de afeto, músicas, vídeos, textos, podcasts, leituras e reflexões, planejar viagens, elaborar projetos.

