No Dia Mundial do AVC, especialistas alertam para a importância da prevenção, do reconhecimento dos sinais de alerta e do atendimento rápido para reduzir o risco de sequelas e morte
AVC também preocupa adultos jovens (Magnific/Divulgação)
O acidente vascular cerebral (AVC), frequentemente associado ao envelhecimento, também preocupa médicos pelo número de fatores de risco presentes entre adultos mais jovens. Hipertensão arterial, diabetes, colesterol elevado, sedentarismo e alimentação desequilibrada estão entre as condições que podem aumentar o risco do problema, muitas vezes sem que a pessoa saiba que precisa de acompanhamento médico.
Celebrado em 29 de outubro, o Dia Mundial do AVC chama a atenção para a importância da prevenção e do diagnóstico precoce. A doença ocorre quando há interrupção do fluxo sanguíneo em uma região do cérebro ou quando um vaso sanguíneo se rompe, provocando lesões que podem comprometer funções motoras, cognitivas e de comunicação. O atendimento imediato é determinante para ampliar as possibilidades de tratamento e reduzir as consequências.
A neurologista Mariana Neves Marques Battaglini, coordenadora da Unidade de AVC do Hospital de Base, observa que alterações de saúde ainda não diagnosticadas podem contribuir para a ocorrência do problema em pessoas que não se consideram parte do grupo de risco. “Os principais fatores de risco são a hipertensão arterial, mal controlada, diabetes, também mal controlada, ter lipidemia, que é o colesterol elevado”, afirma. Segundo a médica, controlar essas condições, praticar atividade física regularmente e manter uma alimentação equilibrada são medidas importantes para reduzir o risco cardiovascular.
A especialista Mariana Neves também chama a atenção para hábitos alimentares adquiridos ao longo da vida e para o sedentarismo. Ela destaca que alterações como hipertensão e colesterol elevado podem passar despercebidas até a ocorrência de um evento cardiovascular, reforçando a importância de exames preventivos e acompanhamento médico mesmo na ausência de sintomas.
Entre adultos jovens, existem ainda causas específicas que precisam ser investigadas. A neurologista do HB cita a dissecção das artérias carótidas e vertebrais, que pode estar relacionada a traumas e outras situações que provocam lesões nos vasos sanguíneos do pescoço. Outra condição mencionada pela neurologista é o forame oval patente, uma comunicação entre as cavidades do coração que pode persistir na vida adulta e, em determinadas circunstâncias, estar associada à ocorrência de AVC.
O uso de substâncias estimulantes também merece atenção. De acordo com a neurologista Mariana Neves, bebidas energéticas, produtos pré-treino e exercícios de alta intensidade podem estar relacionados a alterações do ritmo cardíaco em determinadas situações. A presença de arritmias, como a fibrilação atrial, é relevante porque pode favorecer a formação de coágulos capazes de atingir a circulação cerebral.
A rapidez na identificação dos primeiros sinais é um dos pontos centrais no combate à doença. A neurologista Marina Mamede, do Austa Hospital, explica que o AVC costuma se manifestar por meio de alterações neurológicas que aparecem de forma súbita. “O principal sinal de alerta é o aparecimento súbito de um déficit neurológico. Isso pode se manifestar como perda de força ou formigamento em um lado do corpo, assimetria facial, dificuldade para falar ou compreender o que está sendo dito, perda visual ou alteração importante do equilíbrio e da coordenação”, explica.
Uma forma prática de reconhecer os sinais é observar o rosto, os braços e a fala. Pedir que a pessoa sorria, levante os dois braços e repita uma frase simples pode ajudar a identificar alterações. “Se houver assimetria facial, queda de um dos braços ou dificuldade para falar, é necessário suspeitar de AVC e acionar imediatamente o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), pelo número 192”, afirma a neurologista do Austa.
Nem todos os casos, porém, apresentam os sintomas mais conhecidos. Marina alerta que visão dupla, perda súbita da visão, tontura intensa acompanhada de dificuldade para caminhar, desequilíbrio importante e dificuldade para engolir também podem indicar um AVC. Alterações repentinas de memória, confusão mental e mudanças na percepção do ambiente exigem atenção.
Outro aspecto importante é que a doença nem sempre provoca dor de cabeça. Mesmo quando os sintomas são discretos ou desaparecem espontaneamente depois de alguns minutos, a avaliação médica continua sendo necessária, pois o episódio pode representar um ataque isquêmico transitório, considerado um sinal de alerta para um AVC futuro. “É necessária uma avaliação urgente, pois pode se tratar de um ataque isquêmico transitório, que é um importante sinal de alerta para um AVC futuro”, reforça a neurologista Marina Mamede.
Recentemente, o Austa Hospital recebeu a certificação internacional WSO Angels Platinum, que confere o selo de qualidade assistencial no AVC para o serviço. O Hospital de Base também conta com a certificação WSO.
Dois tipos de AVC e diferentes tratamentos
AVC também preocupa adultos jovens (Magnific/Divulgação)
A neurorradiologista intervencionista Raquel Cristina Trovo Hidalgo, do Hospital de Base, explica que existem dois tipos principais da doença: o isquêmico e o hemorrágico. Embora possam apresentar sintomas semelhantes, as causas e as abordagens terapêuticas são diferentes. “O AVC isquêmico ocorre quando uma artéria que leva sangue ao cérebro é obstruída, geralmente por um coágulo. Com isso, a região cerebral deixa de receber oxigênio e nutrientes, podendo sofrer lesões em poucos minutos. É o tipo mais frequente, responsável por aproximadamente 85% dos casos”, afirma.
Raquel também explica sobre AVC hemorrágico. “Ele contece quando um vaso sanguíneo se rompe, provocando sangramento dentro do cérebro ou nos espaços que o envolvem. Pode estar relacionado à hipertensão arterial descontrolada, à ruptura de aneurismas e a outras alterações dos vasos sanguíneos. Embora sejam diferentes em sua origem, os dois tipos são emergências médicas. Em ambos, o atendimento rápido é fundamental para reduzir o risco de morte e de sequelas.”
Como os sintomas podem ser semelhantes, não é possível determinar o tipo de AVC apenas pela observação clínica. A confirmação depende de avaliação médica e exames de imagem, principalmente a tomografia computadorizada de crânio. A distinção é essencial para orientar o tratamento, uma vez que medicamentos indicados para dissolver coágulos podem agravar um sangramento cerebral.
No AVC isquêmico, pacientes que atendem aos critérios clínicos podem receber trombólise intravenosa, tratamento medicamentoso destinado a dissolver o coágulo. Em casos selecionados, também é possível realizar a trombectomia mecânica, procedimento endovascular que permite retirar o coágulo da artéria cerebral obstruída.
“A trombectomia é especialmente importante nos casos de obstrução de grandes artérias cerebrais. Ela deve ser realizada o mais rapidamente possível e pode beneficiar pacientes selecionados até 24 horas após o início dos sintomas, conforme critérios clínicos e de imagem”, explica Raquel.
Nos casos hemorrágicos, o tratamento busca controlar o sangramento e evitar a progressão das lesões. Dependendo da situação, pode incluir controle da pressão arterial, medicamentos específicos, monitoramento neurológico e cirurgia. Quando a hemorragia está relacionada à ruptura de um aneurisma, procedimentos endovasculares ou cirúrgicos podem ser necessários. “A decisão é individualizada e deve ser tomada rapidamente por uma equipe especializada, com base na avaliação clínica e nos exames de imagem”, afirma Raquel.
Tempo é determinante para a recuperação
AVC é uma emergência médica em que cada minuto pode fazer diferença. Quanto mais tempo uma região cerebral permanece sem receber sangue e oxigênio adequadamente, maior pode ser o comprometimento das células nervosas.
Marina Mamede ressalta que o atendimento precoce amplia as possibilidades de preservar o tecido cerebral e reduzir as sequelas. No AVC isquêmico, a trombólise intravenosa pode ser indicada, em geral, até quatro horas e meia após o início dos sintomas. Já a trombectomia pode beneficiar pacientes selecionados em uma janela de até 24 horas, conforme critérios clínicos e de imagem.
Isso não significa que seja seguro esperar. A orientação é acionar o SAMU, registrar o horário em que os sintomas começaram, ou a última vez em que a pessoa foi vista sem alterações, e encaminhá-la rapidamente a um hospital preparado para diagnosticar e tratar o AVC. “Por isso, não se deve esperar os sintomas melhorarem, tentar resolver o problema em casa ou aguardar uma consulta”, ressalta Marina.
A recuperação, por sua vez, varia conforme a extensão e a localização da lesão, a gravidade do quadro, o tempo até o tratamento e as condições clínicas anteriores. Alguns pacientes retomam suas atividades habituais, enquanto outros podem apresentar limitações motoras, dificuldades de fala, alterações cognitivas ou problemas de deglutição.
Nesses casos, a reabilitação multiprofissional tem papel fundamental. “O neurologista coordena o tratamento clínico e a prevenção de novos eventos; a fisioterapia trabalha mobilidade, equilíbrio e marcha; a fonoaudiologia atua na comunicação, na linguagem e na deglutição; a terapia ocupacional ajuda a recuperar a autonomia nas atividades diárias; e a equipe de enfermagem, a nutrição, a psicologia e o serviço social contribuem para a prevenção de complicações e para o suporte ao paciente e à família. É importante compreender que a reabilitação não se limita aos primeiros dias ou meses”, afirma Marina.
O acompanhamento também deve continuar depois da alta hospitalar, com controle dos fatores de risco e uso correto das medicações prescritas. A prevenção de um novo evento faz parte do tratamento e exige atenção contínua à pressão arterial, ao diabetes, ao colesterol e às possíveis doenças cardíacas.