Chorar, pedir para a mãe ou o pai não sair e querer permanecer ao lado dos pais são reações comuns da necessidade de segurança e proteção que fazem parte do desenvolvimento. Mas, quando o medo se torna intenso ou persistente e passa a limitar a rotina da criança, dificultando ações diárias, como ir à escola, dormir, permanecer com pessoas fora de casa ou participar de atividades próprias da idade, há um alerta importante: a criança pode estar em sofrimento por ansiedade de separação. O caminho para reverter o medo, segundo especialistas, não é eliminar o sofrimento, mas ajudar a criança a perceber, gradualmente, que pode se afastar dos pais e continuar segura.
O problema não possui uma única causa. Segundo especialistas, a ansiedade de separação pode ser resultado de uma soma de fatores, como mudanças radicais na rotina, experiências de perda, separações familiares, adoecimento de cuidadores, ausência prolongada de figuras de apego da criança, bem como ambientes imprevisíveis que aumentam a insegurança da criança. Crianças mais sensíveis ou com maior necessidade de previsibilidade também podem reagir mais.
O psicólogo clínico Bruno Garibaldi explica que a ansiedade de separação se manifesta quando a criança precisa ficar longe de uma ou mais pessoas com quem tem vínculo importante – mãe, pai ou cuidador. “É comum que a criança demonstre medo, chore, peça para o adulto permanecer por perto ou apresente resistência diante da separação”. Segundo ele, em certa medida, essa reação faz parte do desenvolvimento infantil. “Está relacionada à necessidade de segurança e proteção”, afirma.
Mas, quando essa ansiedade é acompanhada de medo intenso, angústia ou sofrimento excessivo diante da separação física ou antecipada das principais figuras de apego da criança, passa, então, a ser alerta! De acordo com Bruno Garibaldi, o principal sinal de que algo não está bem está no grau de sofrimento e no impacto dessa ansiedade. “Uma criança pode chorar ou reclamar quando os pais vão embora e, ainda assim, conseguir se adaptar depois e continuar suas atividades normalmente”, explica.
Já uma criança em sofrimento excessivo pela ansiedade de separação pode sentir medo intenso ou persistente quando afastada dos pais. “Com crises frequentes diante das separações, dificuldade significativa para frequentar a escola, dormir sozinha ou permanecer com outras pessoas”, cita. Junto com o medo, outros sintomas: “preocupações constantes de que algo ruim aconteça com os pais, necessidade excessiva de permanecer próxima deles e até sintomas físicos, como dor de barriga, dor de cabeça, náusea ou alterações no sono”, alerta o psicólogo.
O médico psiquiatra da Unimed Rio Preto, Tulio Fantoni Polimeno, afirmou que mais importante do que um episódio isolado de ansiedade é observar a frequência e, obviamente, o prejuízo que o comportamento está causando. “Quando a ansiedade limita as atividades diárias que são esperadas para a idade, merece um alerta dos cuidadores. Nos critérios de diagnóstico, a gente leva em consideração a persistência dos sintomas pelo menos por quatro semanas em crianças e adolescentes”, esclarece.
O psiquiatra afirma que os sintomas físicos que acompanham a ansiedade de separação são importantes, pois a criança, geralmente, não verbaliza que está ansiosa. “A ansiedade acaba aparecendo em algum ponto do corpo, como uma dor de barriga, uma dor de cabeça, náusea, vômito, sensação de mal-estar e até uma alteração do sono”, afirma.
A dificuldade de dormir sozinha ou ter pesadelos durante a noite também é importante. “Esses sintomas costumam aparecer ou piorar quando a criança está próxima de uma separação ou de um sofrimento antecipatório, por exemplo, começa a sentir dor de barriga no domingo à noite ou pela manhã antes de ir para a escola e melhora quando percebe que vai ficar em casa”, alerta.
A ansiedade pode iniciar por volta dos seis e oito meses, ficar mais evidente entre um e dois anos e, a partir desta idade, reduzir progressivamente. “Por volta dos três anos, espera-se que a criança já consiga tolerar melhor pequenas separações”, ressalta o psiquiatra. Os pais podem reforçar os sintomas. “A intenção dos pais é diminuir o sofrimento da criança, mas, quando toda situação que provoca ansiedade passa a ser evitada, podemos reforçar o que precisa ser combatido”, alerta.
Um exemplo, segundo o psiquiatra, é deixar a criança em casa toda vez que ela resiste a ir à escola. “No curto prazo, a criança vai sentir o alívio, mas o cérebro pode aprender que ela só ficou bem porque evitou o que seria ‘perigoso’, então não é interessante fazer o que a gente chama de reforço negativo”, orienta.
O ideal, segundo o médico, não é obrigar a criança a enfrentar tudo de uma vez ou retirar o acolhimento. “É acolher o sofrimento sem reforçar a evitação e ajudar a criança a enfrentar as separações de maneira gradual, previsível e sempre levando em consideração a idade. Mas, quando o medo está prejudicando a rotina, é sempre recomendado procurar um profissional de saúde mental para cuidar e, aos poucos, recuperar a autonomia”, conclui.


