Arlete Campos, 42 anos, manicure há mais de duas décadas, já perdeu as contas de quantas vezes precisou interromper o trabalho para ir ao banheiro respirar fundo. As mãos suam, o coração acelera, a cabeça parece não acompanhar o ritmo do corpo. Em locais públicos, como filas de banco, ônibus ou até mesmo dentro do salão onde atende suas clientes, o desconforto cresce de forma silenciosa. “Tenho medo de passar mal na frente das pessoas. Às vezes, só de imaginar, já começo a tremer”, relata.
O que muitos interpretam como nervosismo ou estresse cotidiano é, na verdade, uma rotina marcada pela ansiedade constante. Arlete convive com o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), condição caracterizada por preocupação excessiva e persistente, muitas vezes sem um motivo específico. O medo de errar, de adoecer, de ser julgada ou de não dar conta do dia a dia acompanha até tarefas simples, como fazer compras ou atravessar a rua.
Segundo a psicóloga Maria Baleiro, especialista em TCC (Terapia Cognitivo Comportamental). o TAG está entre os quadros mais frequentes da atualidade e diretamente ligado ao modo de vida contemporâneo. “Vivemos em uma sociedade marcada por cobranças constantes, medo de perdas, instabilidade no trabalho e pressões do dia a dia”, explica.
A história de Arlete não é isolada. A saúde mental se tornou um dos maiores desafios da atualidade. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o País com a maior taxa de transtornos de ansiedade no mundo: sete em cada dez brasileiros relatam sintomas frequentes, como insônia, irritabilidade e crises de pânico. Esse cenário se reflete diretamente na vida profissional e nas relações pessoais.
O TAG não tem uma única causa. “Ela pode estar relacionada a fatores genéticos, experiências traumáticas, vivências da infância ou até ao ambiente em que a pessoa viveu ou foi criada. Normalmente, é o resultado de vários fatores atuando juntos”, afirma Lucas Brandão, psicólogo.
Segundo o especialista, os sintomas vão além da preocupação comum. “A pessoa vive em estado constante de alerta, com pensamentos acelerados, medo excessivo, dificuldade de relaxar, insônia, irritabilidade, tensão muscular e sensação de que algo ruim pode acontecer a qualquer momento. Muitas vezes, isso impacta diretamente a vida social e profissional, dificultando ou em casos como o TAG, impedindo as relações sociais”.
No TAG, a ansiedade não aparece apenas em momentos específicos. Ela é contínua, desgastante e, muitas vezes, invisível para quem observa de fora. “Pacientes relatam uma fadiga constante. O corpo vive em estado de alerta permanente, o que pode causar dores musculares, problemas gastrointestinais, dificuldade de concentração e exaustão emocional”, explica .
Mesmo com as dificuldades, Arlete segue trabalhando. O salão de beleza é, ao mesmo tempo, um espaço de acolhimento e desafio. “Tem cliente que percebe quando eu fico diferente, mas muita gente acha que é frescura”, diz.
Tratamento
Especialistas destacam que o TAG tem tratamento, geralmente combinando psicoterapia e, em alguns casos, medicação. “O primeiro passo, no entanto, é reconhecer o problema e falar sobre ele”, diz a psicóloga Maria, acrescentando que o acompanhamento profissional é essencial para que a pessoa consiga compreender e controlar os sintomas. “O tratamento do TAG passa, principalmente, pelo processo terapêutico. Na terapia, o paciente aprende a identificar os gatilhos da ansiedade, entender seus padrões de pensamento e desenvolver estratégias para lidar com as preocupações excessivas”, explica.
Em alguns casos, o tratamento farmacológico é necessário “Quando os sintomas são mais intensos e comprometem a qualidade de vida, pode ser necessário o acompanhamento psiquiátrico para avaliação do uso de medicação, sempre aliado à terapia”, ressalta a psiquiatra Ana Clara Ferreira.
Além da psicoterapia e medicação, a especialista destaca a importância de mudanças no estilo de vida. “Hábitos saudáveis, como a prática regular de atividade física, uma rotina de sono adequada e momentos de descanso, ajudam a reduzir os níveis de ansiedade e contribuem para o equilíbrio emocional”, conclui Ana Clara.
