Empurrar uma pedra
não difere muito
de escrever um poema.
Escolhe-se a palavra,
mede-se o peso,
corrige-se o ritmo.
Quando tudo parece pronto,
o sentido escapa
alguns centímetros
montanha abaixo.
Recomeça-se.
Porque a poesia,
como a pedra de Sísifo
resiste à posse.
Aceita apenas
novas tentativas.
Há quem chame isso
de inspiração.
Mas o ofício conhece
outro nome:
insistência.
Um poema nunca termina.
Chega apenas
ao momento
em que deixa
de discutir
consigo mesmo.
Talvez por isso
todo bom poema
carregue discretamente
a memória
das versões abandonadas,
como se cada palavra
guardasse,
em negativo,
as palavras recusadas.
Aceita-se que o fracasso
faz parte da sintaxe.
Não como derrota,
mas como método.
