A poesia acompanha diferentes momentos da literatura e continua encontrando leitores de várias gerações. No Brasil, obras de autores como Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, João Cabral de Melo Neto, Cora Coralina e Mario Quintana permanecem presentes nas estantes e no imaginário de quem encontra nos versos uma forma particular de compreender sentimentos, experiências e o mundo ao redor.
Com diferentes estilos e linguagens, os livros de poesia podem tratar de temas tão diversos quanto o amor, a infância, a memória, o cotidiano, o humor, o devaneio, a ironia, a política e as questões existenciais. Há poemas que partem de acontecimentos aparentemente simples para alcançar reflexões mais profundas; outros exploram a imaginação, as lembranças ou a própria sonoridade das palavras. Essa diversidade também permite que cada leitor estabeleça uma relação particular com a obra.
Segundo a professora, jornalista, revisora e escritora Célia Regina Cavicchia Vasconcelos, a poesia é uma forma de expressão capaz de traduzir sentimentos, abordar questões sociais e refletir sobre a existência humana. “É o texto que mais se utiliza da função poética da linguagem e, assim, ficamos inundados e iluminados de rimas, sons, ritmos e figuras de linguagem”, afirma.
Para Célia, a força da poesia também está na diversidade de caminhos que os versos podem percorrer. Ela cita como exemplos os poemas de Castro Alves, marcados pela sensualidade; Ferreira Gullar, pela dimensão social; Manuel Bandeira, pelo desencanto; e Carlos Drummond de Andrade, pela metalinguagem. “Gastei uma hora pensando num verso/ que a pena não quer escrever”, lembra, ao destacar um dos poemas de Drummond que traduz a própria inquietação diante do ato de escrever.
Fernando Pessoa também está entre os autores que a encantam, especialmente pela dimensão filosófica de seus versos. Para Célia, a poesia permite justamente essa multiplicidade: pode falar de sentimentos, provocar reflexão, contar histórias, denunciar problemas sociais ou simplesmente criar uma experiência de beleza por meio das palavras.
Para incentivar a aproximação com o gênero, a Bem-Estar convidou cinco escritores e intelectuais a indicar um livro de poesia que marcou suas trajetórias de leitura e explicar por que recomendariam a obra aos leitores. As escolhas passam por diferentes épocas, estilos e autores e mostram como a poesia pode provocar reflexão, despertar memórias e ampliar as formas de perceber a vida. A seguir, eles próprios contam por que determinados livros permaneceram com eles.
“Indico aos leitores da Bem-Estar ‘Geografia’, de Sophia de Mello Breyner Andresen. Há nele um verso que, para mim, concentra uma das questões mais profundas de sua obra: ‘Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo’. Embora seja um verso de amor, seria pouco lê-lo apenas como a relação entre aquele que ama e aquele que é amado. Sophia coloca entre os dois uma terceira presença: o mundo. O terror não está propriamente no amor, mas na condição em que ele acontece: amamos em um mundo submetido ao tempo, ao acaso, à separação e à morte. Há, portanto, uma inadequação fundamental entre aquilo que o amor deseja, a permanência, e aquilo que o mundo pode oferecer. Essa tensão percorre a poesia de Sophia: quanto mais consciente da fragilidade das coisas, mais intensamente ela procura estabelecer uma aliança com elas. Ainda nesse poema, temos o verso ‘florir das ondas ordenadas’: a onda é forma e desaparecimento ao mesmo tempo; existe enquanto se desfaz.”
Priscila Topdjian, doutoranda em Estudos Literários e professora de Literatura
‘Se eu tivesse um único livro preferido, esse livro seria ‘Poema Sujo’, de Ferreira Gullar, lançado em 1976. Isso porque foi um dos primeiros livros diferentes de poesia que li depois das leituras obrigatórias dos clássicos na escola. Na época eu não sabia, mas o que me prendeu a atenção foi o fluxo livre e torrencial da escrita, estilo que até então eu desconhecia. Além disso, o poema discorre sobre o contexto político da época, memórias de infância e impressões sobre as coisas efêmeras e o tempo. Hoje, com quase tudo fragmentado e incompleto, eu indicaria esse livro como um contratempo à apatia poética de nossos dias.”
Jair Lemos, jornalista e artista plástico
“O livro de poemas que mais impactou foi ‘A Rosa do Povo’, de Carlos Drummond de Andrade. É um livro que reflete as tensões sociais e políticas daquele tempo, especialmente o contexto da Segunda Guerra Mundial. Os poemas se destacam pela linguagem inovadora e pela capacidade de transformar acontecimentos cotidianos em reflexão sobre a sociedade e a condição humana. A leitura e releitura desta obra colaborou de maneira decisiva para o meu amadurecimento poético, bem como norteou o que escrevo até hoje e o papel do poeta diante da realidade. ‘A Rosa do Povo’ é um livro que indico sem hesitação.”
Sidnei Olivio, poeta e biólogo
“Indico aos leitores da Bem-Estar o livro 'Sede de me beber inteira', de Liana Ferraz, especialmente pelo poema 'Urgente'. É um poema simples, mas aborda a urgência de algumas coisas que estão um pouco esquecidas em nossas vidas. Um convite para o arrebatamento e encantamento!”
Vera Mussi Hage, escritora
