Há decisões que permanecem por meses ou até anos no campo das intenções. Começar uma atividade física, mudar de carreira, fazer um curso, colocar um projeto em prática, conhecer pessoas novas ou simplesmente mudar uma rotina. A vontade existe, mas alguma coisa parece impedir o primeiro passo. Quando chega o momento de agir, surgem justificativas, dúvidas e a promessa de começar na segunda-feira.
Para a psicóloga cognitivo-comportamental Alana Lin, um dos principais fatores por trás desse comportamento é a chamada zona de conforto. Mesmo quando a situação atual não é necessariamente boa, o cérebro pode se acostumar com a rotina e interpretar qualquer mudança como um esforço ou uma ameaça. “Existe sim uma vontade de mudar, mas o cérebro começa a enxergar o esforço como se fosse uma ameaça”, explica.
Segundo ela, diante da possibilidade de fazer algo diferente, a pessoa pode pensar no gasto de energia, nas novas responsabilidades e nas dificuldades que terá de enfrentar. Manter tudo como está, nesse sentido, parece mais simples. O medo de falhar também pesa. A possibilidade de tentar e não conseguir pode ser suficiente para fazer com que algumas pessoas desistam antes mesmo de começar. “Se eu fizer e não der certo, o que eu prefiro então? Eu nem vou começar”, exemplifica.
Há ainda situações em que a própria dimensão da meta contribui para a paralisia, segundo Alana. Uma mudança muito grande, estabelecida de uma só vez, pode parecer impossível de executar. Ao não alcançar o objetivo estabelecido, a pessoa pode se sentir fracassada e sobrecarregada. Para ela, a dificuldade não está necessariamente na falta de vontade, mas também na ausência de um caminho possível entre o desejo e a ação.
Nem sempre, porém, adiar uma decisão significa apenas medo. Existe uma diferença entre reconhecer racionalmente que determinada escolha não é adequada naquele momento e utilizar justificativas para evitar uma situação que provoca desconforto. Por isso, Alana considera importante separar os sentimentos da análise concreta dos fatos. A pergunta passa a ser: o desconforto existe porque a situação envolve algo novo ou porque há, de fato, um risco ou impedimento que precisa ser considerado?
Nesse processo, é necessário observar os dados concretos. Falta de dinheiro, ausência de tempo ou outras prioridades podem ser razões reais para postergar uma decisão. O problema aparece quando essas justificativas são vagas e servem apenas para alimentar um mecanismo de fuga e esquiva. “É muito importante analisar por essa origem emocional e depois analisar pela lógica”, explica Alana.
Entre os fatores psicológicos que podem contribuir para a falta de iniciativa estão ainda o perfeccionismo, a ansiedade, o desconforto com situações novas, a procrastinação e o receio das críticas e do julgamento social.
A procrastinação costuma aparecer em frases aparentemente inofensivas: começar a dieta na segunda-feira, esperar o mês virar para entrar na academia ou deixar determinada tarefa para outro momento. O adiamento, entretanto, pode se tornar recorrente e manter a pessoa distante daquilo que afirma querer realizar.
A aprovação dos outros
O medo do julgamento também pode fazer com que uma decisão deixe de ser guiada pelos desejos, valores e necessidades da própria pessoa e passe a ser orientada pela expectativa alheia. A busca por aprovação é uma necessidade humana. O problema surge quando a aprovação dos outros passa a ser condição para que alguém se sinta seguro para agir. Nesse cenário, decisões importantes podem ser tomadas para evitar críticas, rejeição ou desaprovação. “A pessoa também pode entrar em um ciclo de excesso de avaliação: pensa tanto nas possíveis consequências e opiniões alheias que acaba não tomando decisão alguma. Com isso, oportunidades podem ser perdidas para evitar o desconforto de se expor,” afirma Alana.
Nas redes sociais, esse processo pode ganhar outra camada: a comparação. Fotos de viagens, conquistas profissionais, corpos, casas, relacionamentos e projetos concluídos mostram, na maior parte das vezes, o resultado final — e não o caminho percorrido até ele. “Não vemos, na mesma proporção, as dúvidas, os erros, os fracassos e o tempo necessário para chegar até ali. Isso pode criar uma percepção distorcida de que os outros estão sempre avançando enquanto nós estamos ficando para trás”, explica a psicóloga Alana.


