A Geração Z, nascida entre 1995 e 2010 (hoje com idade entre 16 e 31 anos), está mais distante do álcool. A afirmação é do relatório “Álcool e a Saúde dos Brasileiros – Panorama 2025”, do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA). Segundo os dados, 64% dos brasileiros deixaram de consumir bebida alcoólica em 2025, e a faixa etária que mais deixou de beber nos últimos dois anos foi a de jovens entre 18 e 24 anos. Enquanto em 2023, 46% da Geração Z se abstiveram de álcool, em 2025 esse percentual saltou para 64%. Uma transformação, segundo especialistas, com impactos positivos na saúde dos jovens e na saúde pública em geral.
O psiquiatra e professor da Faculdade de Medicina Faceres, Fábio Borghi, afirma que vários fatores explicam os dados. “Há uma possível mudança cultural importante entre os jovens, que estão mais preocupados com saúde física e mental, desempenho acadêmico e qualidade de vida”. O especialista ressalta que campanhas de conscientização e maior acesso à informação também têm impacto direto nas escolhas. “Outro ponto relevante é a transformação nas formas de socialização – hoje, muitos encontros acontecem em ambientes onde o consumo de álcool não é central, como atividades esportivas, eventos culturais e até interações digitais”, complementa.
A psicóloga clínica e especialista em psicologia clínica e hospitalar, Glécia Cristina de Oliveira, afirma que, do ponto de vista psicológico, o afastamento do álcool reflete uma reconfiguração na forma como os jovens buscam prazer e regulam emoções. “Observa-se uma valorização de experiências mais autênticas e conscientes, com maior investimento em interações significativas”, analisa.
Há também, segundo a psicóloga, um movimento pelo desenvolvimento de estratégias de enfrentamento mais adaptativas, como prática de exercícios físicos, técnicas de relaxamento e meditação, além da busca por terapias. “Tais recursos substituem, em muitos casos, o uso do álcool como mecanismo de alívio emocional”, afirma. Outro aspecto, de acordo com Glécia Cristina, é a maior percepção dos efeitos adversos do álcool sobre a saúde mental. “Muitos jovens reconhecem que o consumo pode atuar como fator desencadeante ou agravante de quadros ansiosos, impactar negativamente o humor, o sono e a regulação emocional a longo prazo.”
A geração mais jovem, segundo a psicóloga, tende a valorizar também o autocontrole. “Valoriza a clareza cognitiva e o funcionamento emocional equilibrado, em contraste com padrões anteriores que frequentemente associavam o consumo excessivo de álcool ao lazer e à socialização”, reforça.
Impactos
O consumo precoce de álcool, segundo o psiquiatra Fábio Borghi, está associado a diversos riscos à saúde, especialmente porque o cérebro dos jovens ainda está em desenvolvimento. “Em particular, o córtex pré-frontal, que segue em maturação até cerca dos 25 anos. O consumo de álcool pode comprometer funções cognitivas, aumentar a vulnerabilidade à dependência e favorecer comportamentos de risco”, reforça.
A pediatra e candidata à psicanálise pelo GEP Rio Preto e Região, Claudia Janette Boutros Carvalho, afirma que a exposição ao álcool na juventude tem efeitos que repercutem na neuroquímica cerebral, em um pior ajustamento social e no retardo do desenvolvimento de habilidades, “já que um adolescente ainda está se estruturando em termos biológicos, sociais, pessoais e emocionais, aumentando a vulnerabilidade a comportamentos de risco”, afirma.
Riscos que, segundo a médica, vão de mortes no trânsito a atos de violência. “Mais chances de violência sexual, de se envolver em atividades sexuais sem proteção, com maior exposição a doenças sexualmente transmissíveis, maior exposição à gravidez, dificuldades de aprendizado com grande prejuízo acadêmico decorrente de déficit de memória e, com isso, diminuição da autoestima, problemas familiares, perda de emprego, prejuízo financeiro e maior chance de dependência futura”, alerta.
Por outro lado, a redução no consumo de álcool por jovens tem impactos positivos importantes a longo prazo. “Como a diminuição de doenças crônicas, transtornos mentais, suicídio, acidentes e violência”, reforça o psiquiatra Fábio Borghi. “Em termos de saúde pública, pode representar uma geração com melhores indicadores de bem-estar e menor sobrecarga nos sistemas de saúde”, complementa o especialista.
Alerta
Embora parte dos jovens esteja, de fato, adotando hábitos mais saudáveis, o psiquiatra Fábio Borghi afirma que há uma preocupação por trás dos dados. Os jovens, segundo o especialista, podem estar substituindo o álcool pelo uso excessivo de telas, redes sociais, jogos eletrônicos e jogos de azar, além de substâncias psicoestimulantes, anabolizantes ou outros medicamentos sem prescrição. “A hiperconectividade, por exemplo, pode funcionar como uma forma de escape emocional semelhante ao uso de álcool. Por isso, é importante analisar os dados com cautela e de forma mais ampla, considerando a saúde mental e o estilo de vida como um todo”, comenta.


