Em meio à rotina corrida, ao excesso de compromissos e às telas que disputam a atenção de adultos e crianças, uma atividade essencial para a infância pode acabar ficando em segundo plano: brincar. Para a criança, porém, brincar está longe de ser apenas uma maneira de passar o tempo, Especialistas afirmam que é por meio da brincadeira que ela experimenta o mundo, testa possibilidades, desenvolve habilidades, aprende a lidar com frustrações e constrói relações.
E, quando os pais participam, os ganhos vão além do desenvolvimento infantil. O momento compartilhado também fortalece o vínculo e mostra à criança que ela tem a atenção e a companhia dos adultos que ama. “Brincar é a linguagem natural da criança. É enquanto brinca que ela experimenta, faz perguntas, testa hipóteses, erra, tenta novamente e encontra soluções. Por isso, a brincadeira não deve ser vista como um intervalo da aprendizagem, mas como uma das principais formas de a criança aprender”, explica a psicopedagoga Beatriz Navarro.
Menos tela, mais brincadeira
A importância de recuperar esse espaço na rotina ganha ainda mais força diante do tempo que as crianças passam diante das telas. O Panorama da Primeira Infância, levantamento da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal com o Datafolha, mostrou que 78% das crianças de 0 a 3 anos são expostas diariamente a telas. Entre 4 e 6 anos, o índice chega a 94%.
A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda zero telas até os 2 anos e, no máximo, uma hora por dia entre 2 e 5 anos, conforme o documento #MenosTelas #MaisSaúde, atualizado em 2024.
Mas reduzir o tempo diante dos dispositivos não significa apenas estabelecer limites. É preciso oferecer alternativas que sejam interessantes para a criança. E, nesse processo, a participação dos pais pode fazer toda a diferença.
“Como tirar as crianças das telas se nós, os pais, também estamos fascinados por elas? A pergunta certa é o que oferecer no lugar. E a resposta é simples: o chão da sala, um jogo de tabuleiro, uma bola. O brincar disputa espaço com a tela e ganha quando o adulto participa”, ensina Tiago Simões Leite, pediatra e gestor de saúde.
Pai de um menino de 2 anos e de uma bebê de 4 meses, ele conhece na prática o desafio de conciliar filhos, trabalho e vida pessoal. “É uma escolha diária achar tempo para trabalhar, brincar, conversar com a minha esposa e embalar a Sara. Algumas coisas precisam ficar para depois e está tudo bem. Faz parte da vida do adulto escolher e se responsabilizar”, avalia.
Para Aline Cruz, psicopedagoga, a presença dos pais durante a brincadeira não precisa ser longa nem exigir atividades elaboradas. O que faz diferença é a qualidade da atenção oferecida. “Os pais não precisam brincar durante horas todos os dias para construir vínculo. Pequenos períodos de atenção verdadeira podem ser muito significativos. Dez ou quinze minutos de uma brincadeira escolhida pela criança, sem interrupções e sem o celular por perto, podem ter mais qualidade do que muito tempo em que o adulto está fisicamente presente, mas emocionalmente distante”, afirma.

