O que é a era dos relacionamentos líquidos? Como a liquidez da água que escorre entre os dedos e pelas mãos, relacionamentos líquidos são aqueles que iniciam de forma rápida, mas ao mesmo tempo são superficiais, sem compromissos e fadados ao descarte assim que a próxima oportunidade surgir. Vínculos intensos e frágeis que produzem dopamina e levam a uma dependência por estímulos intensos e frequentes. Mas quais as consequências dessas conexões rasas e passageiras? Como identificar esse tipo de relação?
A psicóloga clínica Alana Lin cita o sociólogo Zygmunt Bauman para definir relacionamentos líquidos: “relacionamentos virtuais, medo de compromisso e intimidade e uma busca constante por novas conexões em detrimento de compromissos mais profundos que exigem tempo e empenho”, cita a psicóloga. Nesse tipo de relação, segundo Alana Lin, os vínculos são frágeis, voláteis e sem durabilidade como as propriedades dos líquidos. “Relacionamentos que priorizam a gratificação imediata (prazer rápido) em vez da construção de intimidade”, afirma.
Relações efêmeras são baseadas em dopamina, segundo a psicóloga. “Quando estamos em um novo relacionamento, o cérebro libera dopamina, que é o neurotransmissor relacionado ao prazer, a recompensa e que cria as sensações de prazer e bem-estar e às vezes, euforia”, explica Alana. Estímulos que, segundo a psicóloga, podem levar o indivíduo a um ciclo de busca constante por estas sensações, por meio de novas experiências, focados apenas no prazer imediato.
Dependência que leva o cérebro a desenvolver estratégias para sempre alcançar prazer e euforia – o que explica a busca constante por novidade. “Com o tempo, desenvolve-se a tolerância, ou seja, o cérebro precisará de mais estímulos para conseguir atingir a mesma sensação, levando ao aumento da frequência e/ou intensidade”, alerta. E quando a dopamina baixa é quando surge a síndrome de abstinência, “com ansiedade, insatisfação, humor deprimido, irritabilidade, fazendo com que ele reinicie o ciclo”, pontua Alana.
Consequências
Relacionamentos conhecidos como “líquidos” podem acabar em frustração e até quadros de problemas emocionais, como explica o psicólogo clínico Oswaldo Longo. “As consequências podem ser variadas, passando de um simples desconforto até quadros de sintomas fortes de depressão. Por isso, não devemos brincar com a outra pessoa”, alerta. Segundo Oswaldo, entrar em uma relação, seja ela qual for, séria ou leve, exige diálogo e transparência. “Falar a verdade e não fazer planos que não irão ser sustentados”, orienta. Segundo o psicólogo, relacionamentos não são exatos, mas devem ser organizados conforme a disposição de ambos.
Mudanças
A liquidez, segundo Oswaldo, também pode ser explicada pela escolha por uma vida livre, sem responsabilidades e cobranças, mas com benefícios de um relacionamento. “O que pode ser bastante imaturo querer apenas o que existe de bom e não saber lidar com comprometimento e regras”, afirma. A ressalva, portanto, está no desejo de ambas. “Se as duas partes estão dispostas a viver essa relação leve, não há problemas, mas sempre organizada com verdade e sem enganar um ao outro”, orienta.
Os relacionamentos líquidos são frutos também, segundo Oswaldo, das mudanças no conceito sobre relacionamento, sejam eles afetivos, de trabalho e até mesmo com o corpo. “Quase todas as verdades ou regras são questionáveis atualmente. Poderíamos afirmar que de um modo subjetivo, as relações estão com um leque de possibilidades de existência muito diferente dos últimos 50 anos”, analisa.
Oswaldo lembra que tempos atrás, na maior parte dos encontros, as relações já começavam sérias e caminhavam para compromissos. “Em dias atuais, existe uma flexibilidade e uma nova forma de interpretar o vínculo, onde cabem relações que não exigem consistência e sustentações”, analisa. Hoje, muitas relações começam de forma aleatória, sem comprometimento e sem vida social ou familiar. “Em um outro momento que só então passamos para o que chamamos de namoro inicial, que seria o primeiro ano do namoro, onde tudo é novidade e tudo pode ser ainda muito leve e frágil”, cita.
Um ano nesta configuração que se evolui então para o namoro sério, quando a presença de vida social, viagens e família é mais frequente. “Após isso, quando resolvem fazer planos juntos, daí vem o noivado e finalmente chega ao casamento”, analisa. Ou seja, o que antes era compromisso, hoje é uma gama de possibilidades. “No entanto, pode estar aqui uma explicação também das inúmeras vezes que as relações sérias podem acabar em traição e fracassos que deixam marcas traumáticas”, alerta.
E como evitar relacionamentos líquidos? “A dica é conhecer mais sobre a história de vida, entender mais as propostas, não deixar de falar o que pensa e a que está disposto e cuidado com personagens que parecem perfeitos demais, não deixe de observar padrões e se puder, esteja sempre contando com pessoas que possam lhe dar apoio, inclusive de profissionais”, orienta Oswaldo.

