A campanha "Quaresma Seca", desenvolvida pelo Departamento de Hipertensão Arterial (DHA) da Sociedade Brasileira de Cardiologia, convida a população a reduzir ou suspender voluntariamente o consumo de álcool por 40 dias. A iniciativa será marcada por uma série de lives no Instagram, com duração aproximada de 30 minutos cada. As lives serão realizadas sempre às 19h, nos dias 25 de fevereiro; 4, 11, 18 e 25 de março; e 1º de abril, encerrando a iniciativa em 2026.
Inspirada no movimento Dry January (Janeiro Seco), a proposta é respaldada por evidências científicas. Estudo publicado em 2025 na revista Alcohol and Alcoholism aponta benefícios como melhora do sono, redução da pressão arterial, mais disposição e, principalmente, diminuição sustentada do consumo de álcool nos meses seguintes. Uma pausa de 30 dias pode ajudar a reorganizar padrões e hábitos.
No Brasil, porém, o calendário cultural influencia diretamente a adesão. Janeiro é tradicionalmente marcado por férias, viagens e confraternizações que se estendem das festas de fim de ano até o Carnaval. Propor abstinência nesse período pode destoar do ritmo social. Por isso, a campanha sugere iniciar a pausa após o Carnaval, momento em que o país retoma a rotina de trabalho e compromissos.
“Passado o período de comemorações, o país entra em um momento natural de reorganização: é a retomada das rotinas, do trabalho e dos compromissos do dia a dia. Culturalmente, esse intervalo também coincide com um tempo historicamente associado à reflexão e ao autocontrole, o que favorece a adesão à pausa no consumo de álcool. Ao respeitar esse ritmo, a campanha busca ampliar o engajamento e transformar a redução do consumo em uma escolha mais consciente e sustentável, já que o consumo de álcool pode impactar a pressão arterial de diferentes formas”, explica o cardiologista e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Audes Feitosa.
De acordo com especialistas do DHA, o álcool interfere em mecanismos fundamentais do organismo, como o equilíbrio hormonal responsável pela regulação dos vasos sanguíneos, além de estimular o sistema nervoso simpático, acelerando os batimentos cardíacos e favorecendo arritmias. O consumo frequente também costuma estar associado a alimentação rica em sal, sedentarismo e ganho de peso — fatores que contribuem para o aumento da pressão arterial.
A longo prazo, as consequências podem ser ainda mais graves. “O uso excessivo e contínuo do álcool eleva o risco de acidente vascular cerebral (AVC) e pode enfraquecer o músculo do coração, levando à insuficiência cardíaca, inclusive em pessoas sem histórico prévio de doenças cardiovasculares”, conclui Audes.
