No acervo do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade Federal do Paraná (MAE-UFPR), uma coleção de cerâmicas guarda histórias de mulheres, comunidades e saberes transmitidos entre gerações. Parte desse acervo é apresentada no documentário Coleção Cerâmica – Herta Löell Scheuer, que recupera a trajetória da pesquisadora, pioneira no registro da cerâmica popular produzida por mulheres em comunidades de São Paulo e do Paraná entre as décadas de 1960 e 1980.
De seu trabalho de campo resultaram fotografias, desenhos, publicações e uma coleção de objetos doada ao MAE-UFPR em 1984. Panelas, moringas, potes, cachimbos e ferramentas testemunham práticas culturais e conhecimentos ancestrais que resistiram às transformações sociais e econômicas do século 20.
Produzido pelo Grupo de Pesquisa em Arqueologia do Gênero, da Persistência e da Libertação (ARGPEL), do Laboratório de Estudos Arqueológicos da Universidade Federal de São Paulo (LEA-Unifesp), com financiamento da Fapesp, o documentário integra uma série sobre as práticas cerâmicas do Alto Vale do Ribeira e as mulheres que mantêm esses saberes vivos.
O projeto coloca em diálogo acervos arqueológicos e museológicos, documentos e fotografias com pessoas e comunidades do presente, especialmente mulheres ceramistas e suas famílias. “É nesse contexto que retomamos a trajetória e o acervo de Herta Löell Scheuer. Ela reuniu, ao longo de suas pesquisas, peças, fotografias e informações sobre a produção cerâmica de diferentes comunidades. Hoje, revisitamos esses registros a partir de novas perguntas e, principalmente, das pesquisas que realizamos em parceria com mulheres ceramistas do Vale do Ribeira”, relata Marianne Sallum, responsável pelo projeto e pela produção do documentário.
Segundo a pesquisadora, os registros de Herta permitem acessar saberes das décadas de 1950 e 1960 e estabelecer uma ponte com conhecimentos mais antigos. A comparação com coleções arqueológicas e informações históricas também indica que o Vale do Ribeira preserva práticas que foram comuns em grande parte do Estado de São Paulo, mas desapareceram gradativamente desde o fim do século 19.
O diálogo entre passado e presente permite identificar continuidades, transformações, histórias familiares e modos de fazer que não podem ser compreendidos apenas pelos objetos preservados nos museus. “O objetivo central da pesquisa é conectar passado e presente e conseguir reconhecer as interações entre pessoas indígenas e da diáspora africana das diversas comunidades de São Paulo”, pontua Sallum.
Com 15 minutos de duração, o documentário foi dirigido por Thiago Altafini, bolsista de jornalismo científico da
Fapesp, e contou com a colaboração do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisas
em Evolução, Cultura e Meio Ambiente (Levoc), do MAE-USP, também com apoio da Fapesp.
