Desde a infância, Jeiza Pontes já pregava. Ainda menina, reunia as bonecas para brincar de anunciar a Palavra de Deus. Um gesto simples, mas que, para ela, já carregava a certeza de um chamado. Filha de um lar cristão, cresceu com a convicção de que cuidar de pessoas e servir a Deus não seria apenas uma escolha, mas uma missão de vida.
Formada em Teologia, casada há 21 anos com o bispo Alex Pontes, ela também carrega na história um testemunho que define como milagre: após 13 anos de espera e tentativas frustradas de inseminação, tornou-se mãe de Benício, hoje com 7 anos. Entre fé, família e ministério, construiu uma trajetória marcada por superação, sensibilidade e entrega.
À frente da Cabana Church, igreja que nasceu com a proposta de ser refúgio, acolhimento e descanso para quem chega ferido pelas dores da vida, Jeiza defende um evangelho simples, vivido na prática e traduzido em ações concretas de amor ao próximo. Fora do púlpito, encontra alegria no essencial: estar em casa, cercada pela família, aproveitando momentos de paz em meio à rotina intensa.
Nesta entrevista, a bispa Jeiza fala sobre propósito, liderança feminina, pertencimento, desafios e fé. Uma fé que, como ela define, não apenas sente, mas sabe.
Leia a seguir:
BE – Em que momento a senhora percebeu que o ministério pastoral não era apenas um chamado, mas uma missão de vida?
Jeiza Pontes – Nasci em um lar cristão e, desde criança, minha brincadeira preferida era pregar a Palavra de Deus para as minhas bonecas. Eu sempre levava aquilo muito a sério, como se já estivesse cumprindo um propósito. Desde pequena, sentia no coração que era para isso que eu tinha nascido, como um chamado que já fazia parte de mim.
BE – Que experiências pessoais mais moldaram sua forma de liderar e cuidar de pessoas?
Jeiza Pontes – Acredito que os momentos de deserto que passamos, embora sejam muito difíceis enquanto estamos vivendo, acabam nos transformando em pessoas melhores, mais humanas e mais empáticas com a dor do próximo. Nós passamos por muitas privações financeiras, enfrentamos enfermidades bem difíceis – eu, na época da Covid, e, recentemente, meu marido, que chegou a ficar na UTI, desenganado pelos médicos, com um problema raro no coração. Tudo isso são dores que nos formam na prática, que nos amadurecem e fortalecem a nossa fé.
BE – O nome “Cabana” sugere abrigo, encontro e descanso. O que esse conceito representa na prática da igreja?
Jeiza Pontes – Sim, a Cabana nasceu justamente com esse propósito: ser um lugar de refúgio, não apenas para nós, mas para todos que precisam encontrar descanso. Um espaço de acolhimento, de cura e de paz, um verdadeiro esconderijo do Altíssimo, como diz o Salmo 91.
BE – Em um cenário de tantas igrejas e discursos religiosos, o que diferencia a Cabana Church?
Jeiza Pontes – Justamente buscamos não ter apenas um discurso, mas viver, na prática, aquilo que acreditamos ser o verdadeiro evangelho. Um evangelho simples e, ao mesmo tempo, profundo, que se manifesta no amor de Jesus por meio de ações concretas: cuidar do próximo, acolher, servir e amar pessoas de verdade. Para nós, se não for assim, não faz sentido.
BE – Quais foram os maiores desafios de se afirmar como mulher em um espaço historicamente masculino?
Jeiza Pontes – É verdade que ainda existe um certo preconceito por eu ser mulher, mas o apoio da minha família, junto com a convicção que sempre tive de que Deus me chamou para fazer o que faço, foi o que me deu força para continuar. Esse suporte me ajudou a seguir em frente e a cumprir o meu propósito com confiança e fé.
BE – Que conselhos daria a mulheres que sentem vocação, mas ainda enfrentam medo ou resistência?
Jeiza Pontes – Que busquem ao Senhor de todo o coração e não deixem de realizar o seu chamado. Seja cuidar de uma igreja, gerenciar ou abrir uma empresa, cuidar da casa ou qualquer outra missão que Deus tenha confiado a você. Não se intimide. Faça sempre o seu melhor e siga com fé. Quando olhamos para a Bíblia, vemos tantas mulheres incríveis que foram chamadas pelo próprio Deus e cumpriram seus propósitos com coragem, isso nos inspira a continuar.
BE – Como é construir e conduzir a Cabana Church em parceria com seu marido, conciliando vida conjugal e missão pastoral?
Jeiza Pontes – É o maior prazer da nossa vida. Isso nos faz depender de Deus todos os dias, porque cremos que não tem a ver com a gente ou com a nossa própria capacidade. Só pode ser a graça d’Ele. E essa consciência nos faz sentir ainda mais privilegiados por receber essa missão, que é, sim, muito difícil, mas infinitamente mais prazerosa e gratificante.
BE – A senhora acredita que a liderança feminina transforma a forma como a igreja se relaciona com o mundo? De que maneira?
Jeiza Pontes – Acredito que essa não seja uma pauta apenas da igreja, mas da sociedade como um todo. É muito lindo ver as mulheres ganhando espaço, e a presença feminina em cargos de liderança é, sem dúvida, um grande ganho para todos. Somos mais sensíveis, temos uma característica única e uma força muito própria. Quando uma mulher decide se levantar, ela é guerreira. Isso está em nós.
Por isso vemos tantas referências na Bíblia, com mulheres como Rute, Joquebede, Ester, Maria e tantas outras, que foram exemplos de coragem, fé e determinação.
BE – Qual deve ser o papel da igreja diante das desigualdades sociais e emocionais do nosso tempo?
Jeiza Pontes – Deus nos deu isso como missão: cuidar do órfão, do necessitado e da viúva. Como igreja, desenvolvemos um trabalho assistencial muito forte, com atendimentos gratuitos em nosso Instituto, além de um mercado solidário que atende centenas de famílias. Ali, além de terem suas necessidades supridas, elas também têm a dignidade restituída, podendo entrar no mercado e escolher a própria compra.
Nosso Instituto também oferece atendimento gratuito voltado ao cuidado com a mente, já que a depressão é um dos grandes males deste século. Contamos com psicólogos que atendem gratuitamente a população que não tem condições de pagar por terapia, levando acolhimento, escuta e suporte emocional a quem mais precisa.
BE – Como dialogar com uma geração que desconfia de discursos prontos, mas busca sentido?
Jeiza Pontes – O apóstolo Paulo diz algo muito lindo sobre isso. Ele afirma: “A minha palavra e a minha pregação não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a fé que vocês têm não se apoiasse na sabedoria humana, mas no poder de Deus”.
Dessa maneira, eu também me coloco como alguém que desconfia de discursos prontos, porque acredito em um Jesus vivo, presente e real, tão real quanto o fato de você estar lendo esta revista agora.
BE – O pertencimento pode ser tão importante quanto a crença?
Jeiza Pontes – Acredito que, quando a crença é verdadeira, o pertencimento se torna uma consequência natural. Cremos tanto em Jesus e o amamos tanto que seria impossível ser apenas participantes de uma comunidade. Somos, de fato, pertencentes a Ele. É um vínculo de fé, entrega e identidade, algo que faz parte de quem somos.
BE – Que legado espiritual a senhora espera deixar como bispa e líder?
Jeiza Pontes – Meu maior sonho é deixar como legado o amor que sinto por Jesus e pela obra d’Ele aqui na Terra. Uma oração que sempre faço é para que eu possa enxergar como Ele enxerga, ouvir como Ele ouve e sentir como Ele sente, para que as minhas atitudes sejam cada vez mais parecidas com as d’Ele.
Se eu puder deixar algo para as pessoas, que seja isso: o meu amor por Ele. Esse, sem dúvida, seria o meu maior legado.
BE – Em uma frase: o que é fé para você hoje?
Jeiza Pontes – A fé é exatamente a convicção das coisas que não vemos. É uma frase que tem me acompanhado tanto nos momentos bons quanto nos de grande dificuldade: não podemos ter uma fé que apenas sente, precisamos ter uma fé que sabe.
Nem sempre vamos “sentir” que Deus está conosco, mas a fé que sabe nos dá essa certeza. Mesmo nos dias em que eu não sinto, eu sei que Ele está. E é isso que me sustenta.
