Engenheiro agrônomo de formação e empresário com atuação em diferentes frentes do agronegócio, André Luis Seixas tem acompanhado de perto, e ajudado a impulsionar, uma transformação silenciosa, mas promissora, no noroeste paulista: o avanço da cultura do cacau.
Como 4º vice-presidente da Acirp, ele esteve à frente de iniciativas que vão desde a estruturação de projetos estratégicos até o fortalecimento de novas cadeias produtivas na região.
Formado pela Unesp de Jaboticabal e com MBA em Administração de Empresas pela FEA / USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo), André Luís é pai de Olivia e Vicente. "Nos momentos de lazer, gosto de pescar".
André Luís fala sobre os bastidores desse movimento, os desafios para consolidar o cacau em São Paulo e a ambição de posicionar Rio Preto como referência estadual no setor.
Leia a entrevista a seguir:
BE - Como 4º vice-presidente da Acirp, quais têm sido suas principais frentes de atuação e prioridades dentro da entidade?
André Luis Seixas - Quando o presidente Jean me convidou para assumir uma vice-presidência, as missões foram muito claras: consolidar a cadeia produtiva do cacau na região de Rio Preto; apoiar a Diretoria de Economia Criativa e Captação de Recursos na estruturação de um departamento e de uma política interna de captação de recursos e patrocínios para a entidade, o que é um grande desafio, mas no qual avançamos bastante; e, por fim, apoiar a Diretoria de Patrimônio na finalização das obras do Auditório Acirp, da nova sede da Distrital Norte e da instalação do Hub de Inovação no Parque Tecnológico, obras importantes para a Associação e para o município.
Hoje, todas estão inauguradas e em operação para atender nossos associados e o público da cidade. As obras foram entregues, mas as demais missões continuam sendo executadas, pois ainda há muito trabalho a ser feito.
BE - Qual é a sua visão sobre o papel da Acirp no desenvolvimento econômico de São José do Rio Preto, especialmente em relação a novas cadeias produtivas como a do cacau?
André Luis Seixas - A Acirp, ao longo dos seus quase 106 anos de existência, sempre teve papel importante no desenvolvimento da cidade, com o objetivo permanente de promover um bom ambiente de negócios. No caso da cadeia produtiva do cacau, não foi diferente.
Em 2018, a CATI, Diretoria de Assistência Técnica Integral da Secretaria Estadual de Agricultura, nos convidou para participar do projeto do cacau em parceria com a Cargill. A avaliação do então presidente Paulo Sader e da diretoria foi de que a introdução da cacauicultura na região teria o poder de transformar o agronegócio regional.
Então, firmamos a parceria e iniciamos o projeto, que resultou na criação de uma política pública de estado, o Cacau SP; no reconhecimento do CPL do Cacau de São José do Rio Preto; na fundação do NUCA, Núcleo de Cacau da Acirp; e em um aumento significativo da área plantada em nosso estado. Segundo publicação da CATI de março de 2026, atingimos 650 hectares em 120 propriedades de 65 municípios paulistas, sendo a maioria deles na nossa região. Na nossa avaliação, isso é só o início.
BE - Sua formação em agronomia começou em Jaboticabal e seguiu para a gestão na USP. Como essa combinação técnica e administrativa moldou sua atuação no agronegócio?
André Luis Seixas - A formação técnica sempre é fundamental na construção de qualquer carreira. Ter estudado na Unesp, em Jaboticabal, e na USP, em Ribeirão Preto, teve papel essencial na minha formação. Porém, o exemplo de casa também exerceu muita influência nessa atuação, pois cresci vendo meu pai, Rui Seixas, muito envolvido nas questões do agronegócio e sempre defendendo e participando de iniciativas associativistas, como a Sociedade do Engenheiros, cooperativas e associações.
Sempre admirei o trabalho da Acirp e, quando entendi que os valores da instituição coincidiam com os meus, iniciei minha participação por meio do Núcleo de Jovens Empreendedores, o NJE. Depois, passei pela Diretoria da Distrital Leste e, finalmente, em 2018, assumi a Diretoria de Agronegócios, na qual permaneci por 10 anos. Nos últimos dois anos, acumulei essa função com o cargo de 4º vice-presidente e, agora, na atual gestão, transfiro a responsabilidade da Diretoria de Agronegócios.
BE - O senhor atua em diferentes frentes, como produção rural, paisagismo e tecnologia de mudas. Como essas experiências se conectam na prática?
André Luis Seixas - Essas atividades são relativamente conectadas. No paisagismo, atuo em sociedade com minha mãe na Verdeplan Paisagismo, que sempre foi o negócio da nossa família há mais de 45 anos. A produção rural, atualmente, se restringe à heveicultura e à produção de mudas de cacau, pois o viveiro que produzia plantas ornamentais para a Verdeplan foi transformado em um viveiro voltado à produção de mudas de cacau, com o avanço do projeto na região e o aumento da demanda por mudas. Atualmente, somos o único viveiro especializado em produção de mudas de cacau no estado de São Paulo.
BE - Até poucos anos atrás, o cacau praticamente não existia na região de Rio Preto. O que mudou de 2019 para cá?
André Luis Seixas - Até 2019, o cacau era cultivado comercialmente na nossa região em apenas uma propriedade, em uma área de aproximadamente 70 hectares. Atualmente, temos 650 hectares de plantio no estado, espalhados por 120 propriedades em 65 municípios.
Esse grande avanço foi resultado do trabalho conjunto da Acirp e da CATI, com apoio financeiro da Fundação Cargill. Atualmente, não contamos mais com esse apoio, mas a cultura continua em expansão no estado, pois os produtores têm acreditado no potencial da cacauicultura e investido nos plantios.
BE - Por que São José do Rio Preto e região têm potencial para se tornar um polo de produção de cacau no estado de São Paulo?
André Luis Seixas - Nossa região tem grande potencial para assumir o protagonismo na produção de cacau estadual, pois reúne todas as condições agronômicas necessárias para alcançar boas produtividades, desde que os produtores sigam as orientações técnicas e agronômicas dos especialistas.
Outro fator importante é a proximidade com o grande mercado consumidor de chocolate do país. Além disso, temos um corpo técnico da CATI muito experiente, produtores rurais com visão empreendedora, a Acirp apoiando o setor por meio do Nuca e da governança do APL do Cacau, além da localização estratégica e da infraestrutura de nossa cidade. São José do Rio Preto será a capital paulista do cacau.
BE - O Pará lidera atualmente a produção nacional de cacau. Onde São Paulo pode se diferenciar nesse mercado?
André Luis Seixas - O estado de São Paulo possui a maior renda per capita entre os estados brasileiros, ou seja, é um grande consumidor de chocolates e de produtos que utilizam o cacau como matéria-prima. A grande maioria das indústrias chocolateiras estão nas regiões sul e sudeste, porém as grandes moageiras de cacau estão localizadas na região de Ilheus, ou seja, quase todo cacau produzido no Brasil é processado em Ilhéus e depois vem para a indústria chocolateira aqui no sudeste ser transformado em chocolate, se conseguirmos produzir um volume expressivo de amêndoas, esse cenário pode mudar, e a indústria pode se movimentar em moer em São Paulo, pois o ganho logístico é enorme. Essa é a grande oportunidade!
BE - O trabalho com mudas no Viveiro Pró Cacau envolve tecnologia. Que tipo de inovação está sendo aplicada hoje no cultivo do cacau?
André Luis Seixas - A cultura do cacau está passando por uma revolução. Os sistemas de cultivo, que sempre foram desenvolvidos sob a sombra da floresta, atualmente também passaram a ser realizados a pleno sol.
Na produção de mudas, não tem sido diferente. Até o final da década de 1990, as mudas eram produzidas por sementes. No início dos anos 2000, surgiram as mudas enxertadas e clonais. Atualmente, produzimos mudas a partir de estacas, em embalagens biodegradáveis.
Com esse tipo de muda, conseguimos entregar plantas clonadas com um nível de uniformidade muito alto, adaptadas ao clima da nossa região e acondicionadas em uma embalagem de papel biodegradável e sustentável, que utiliza pouco plástico na produção e ainda reduz a mortalidade no campo.
BE - Quais são os principais desafios para quem quer começar a investir em cacau na região?
André Luis Seixas - O investidor que pretende iniciar o plantio de cacau deve sempre procurar os técnicos da CATI para elaborar o projeto, pois é a equipe com maior conhecimento técnico sobre a cultura no estado. Os principais pontos de atenção, porém, devem estar relacionados à mitigação dos riscos de geada e vento frio, além da implantação de um bom sistema de irrigação.
BE - O senhor também atua no Comdema e no Fundema. Como a pauta ambiental se relaciona com o avanço da cultura do cacau?
André Luis Seixas - A cultura do cacau tem muito a colaborar com as questões ambientais, pois grande parte dos plantios da nossa região ocorre em sistemas de consórcio entre duas ou três culturas. Esse modelo de plantio é muito eficiente ambientalmente, pois a integração de mais de uma cultura aumenta a proteção do solo e a diversificação da fauna e da flora, além de ser economicamente vantajosa para o agricultor.
BE - Há um evento da Acirp sobre cacau previsto para junho. O que o público pode esperar e qual é o objetivo principal desse encontro?
André Luis Seixas - A Acirp, por meio do NUCA, Núcleo de Cacau da Acirp, está organizando um grande evento chamado Cacau Paulista, que será realizado no dia 25 de junho, em seu auditório, na avenida Bady Bassitt.
Será um dia inteiro de palestras técnicas, com especialistas de várias regiões do país, discutindo a cadeia produtiva como um todo, desde o início do plantio até manejo de irrigação, adubação, poda, pós-colheita, investimentos e mercado. A ideia é consolidar São José do Rio Preto como a capital paulista do cacau.
BE - Pensando no futuro, qual é a sua visão para o cacau em São Paulo nos próximos 5 a 10 anos?
André Luis Seixas - A cultura do cacau tem potencial para realmente se estabelecer e se tornar uma alternativa importante para o produtor do noroeste paulista. Acredito que, daqui a 10 anos, teremos alguns milhares de hectares de cultivo, com várias iniciativas ligadas à cadeia, como chocolates artesanais, cultivos de outras frutas que serão introduzidas com o cacau e uma indústria moageira operando no estado.
