A atriz Fernanda Freitas carrega na memória as marcas de uma infância vivida entre mudanças e recomeços. Filha de pais muito jovens, a mãe concluindo a faculdade em Paranaíba (MS) e o pai finalizando engenharia civil em Rio Preto, ela nasceu em Rio Preto, mas passou os primeiros anos no Mato Grosso do Sul. “Nasci em Rio Preto, mas logo voltei para Paranaíba com a minha mãe. Fui criada lá até os cinco anos. Depois retornei para Rio Preto, onde vivi até os 19”, relembra.
Antes de se entregar definitivamente à arte, iniciou dois anos de psicologia, mas não concluiu o curso. A vocação falou mais alto e ela seguiu para o Rio de Janeiro para estudar teatro, decisão que mudaria o rumo da sua trajetória.
Na televisão, um dos trabalhos que mais reverberam até hoje é “Tapas & Beijos”. “Mesmo depois de dez anos, a série continua viva. Hoje vejo muitos adolescentes assistindo e redescobrindo, às vezes por influência dos pais. E os memes também ajudaram a dar um novo fôlego. É um trabalho muito especial para mim”, destaca.
No teatro, ela aponta como divisor de águas a peça “Ensina-me a Viver”, sua estreia nos palcos. Durante cinco anos em cartaz, o espetáculo percorreu o país, rendeu indicações e reconhecimento. “Foi um sucesso por onde passou. Recebi minha primeira indicação a um prêmio importante no Rio de Janeiro. Foi um trabalho transformador.”
Já no cinema, o marco foi “Malu de Bicicleta”, seu primeiro papel protagonista. A atuação lhe garantiu indicações e prêmios, incluindo reconhecimento no Festival do Rio e no Festival de Paulínia. “Foi o trabalho que me colocou em um lugar muito bacana como atriz”, afirma.
Atualmente em cartaz com “Habitat”, Fernanda mergulha em uma personagem densa e multifacetada. “É uma personagem com muitas camadas. Posso mostrar meu lado mais dramático, mas também há um humor mais ácido. É um trabalho muito importante para mim.”
Longe dos palcos e das câmeras, a atriz valoriza a simplicidade. “Nos meus momentos de lazer, o que eu mais gosto é ficar em casa com a minha família e meus cachorros. Eu adoro cuidar da casa, limpar, organizar tudo, fazer comida para eles, cuidar das plantas.” E completa, revelando seu lado esportivo: “Também adoro jogar futevôlei com o Simão, meu companheiro de vida.”
Leia a entrevista a seguir:
BE – Você transita com muita naturalidade entre teatro, TV e cinema. Em que momento da carreira você se sente hoje?
Fernanda Freitas – Eu me sinto muito realizada no teatro. Gosto dos três veículos, cada um tem sua magia e seus desafios, mas, neste momento da minha trajetória, estou especialmente conectada com os palcos. É ali que tenho me sentido mais forte, mais viva artisticamente.
BE – O que te motiva a escolher um novo projeto?
Fernanda Freitas – O que mais me motiva é, antes de tudo, uma boa história para ser contada. Quando o texto me toca e percebo que aquela narrativa pode provocar algo no público, já é um grande passo. Além disso, uma personagem interessante, com camadas e possibilidades de construção, também faz toda a diferença. Mas, acima de tudo, é a força da história que me conquista.
BE – Ao longo da sua trajetória, houve algum trabalho que mudou sua forma de ver a profissão?
Fernanda Freitas – Sim, foi com o filme “Cidade Baixa”. Eu fiz uma pequena participação, mas o processo até chegar ali foi muito intenso. Foram vários testes, uma preparação cuidadosa, um caminho longo até conquistar aquele espaço. Mesmo sendo uma ponta, vivi tudo com muita entrega, e isso me fez enxergar a profissão com outros olhos, com mais consciência sobre o quanto cada etapa é importante e transformadora.
BE – A peça “Habitat” está em cartaz e tem despertado muita atenção. O que te encantou nesse projeto?
Fernanda Freitas – Sem dúvida, a personagem. Ela é extremamente complexa, cheia de nuances, difícil em muitos momentos e, justamente por isso, tão desafiadora.
É um papel que exige muito de mim, emocional e artisticamente, mas que também me proporciona um prazer enorme em cena.
BE – Sem dar spoilers, o que o público pode esperar desse espetáculo?
Fernanda Freitas – “Habitat” é uma peça super contemporânea, que dialoga diretamente com o tempo em que estamos vivendo. Ela fala sobre redes sociais, imediatismo, excesso de informação e, principalmente, sobre os julgamentos precipitados que fazemos todos os dias. Essa coisa de a gente estar vendo uma notícia, às vezes nem lemos a matéria inteira, assistimos a um vídeo fora de contexto e já formamos uma opinião definitiva, sem querer entender o que realmente aconteceu.
A peça expõe essa crueza do ser humano, mas no sentido de revelar nossas ambiguidades, nossa sombra e nossa luz. Ela nos convida a olhar para essas contradições com mais honestidade, sem filtros, como a vida realmente é.
BE – Em meio a uma rotina tão intensa, como você cuida da sua saúde física e emocional?
Fernanda Freitas – Para mim, saúde física e emocional caminham juntas. Sempre fui muito ligada ao esporte, sou bailarina desde os oito anos de idade e nunca parei de me movimentar. Além da dança, jogava vôlei, basquete, handebol, bola queimada na rua, andava de skate… sempre fui muito ativa e fazia tudo no colégio.
Quando cheguei ao Rio, conheci também os esportes de praia: jogo frescobol, altinha, futevôlei. E agora voltei a fazer aula de dança. Eu realmente não consigo ficar parada (risos). Preciso me movimentar, liberar energia, produzir esses hormônios que fazem tão bem. A atividade física, para mim, é uma grande aliada do equilíbrio mental.
BE – Existe algum hábito que hoje é indispensável para o seu bem-estar?
Fernanda Freitas – Sem dúvida, o principal é abraçar, cheirar e encher de carinho meus filhos de quatro patas. Parece simples, mas é transformador. Eles me trazem para o presente, me dão afeto sem medida e têm uma capacidade incrível de aliviar qualquer tensão. Esse momento de troca, de carinho mesmo, olha, é maravilhoso.
BE – Você é rio-pretense e construiu uma carreira nacional. Qual é hoje o seu vínculo com a cidade? Que lembranças de Rio Preto ainda te acompanham?
Fernanda Freitas – Meu pai ainda mora em Rio Preto, tenho tias, tios, meus amigos… então meu vínculo continua muito vivo. É uma cidade que está sempre no meu coração. Fora as lembranças da infância que são muito fortes. Eu vivi aquela fase deliciosa de brincar na rua, algo que hoje é cada vez mais raro de se ver. A gente jogava queimada, ficava conversando na calçada…
BE – Sempre que volta à cidade, o que faz questão de rever ou revisitar?
Fernanda Freitas – Sempre que eu volto à cidade, eu gosto de estar com os meus amigos e com a minha família. Também adoro passar na Represa, adoro ali, muitas vezes vou caminhar na Represa, ficar vendo aquela natureza, as capivaras.
Estudei no Sesi, então também gosto de revisitar essas memórias, matar um pouco a saudade daquela fase da vida. Às vezes passo em frente ao Colégio Santo André, no Pio X, escolas onde eu estudei e que fizeram parte da minha história. São lugares icônicos para mim, cheios de lembranças e significado.
