Há pessoas que ajudam a escrever a história de uma cidade. Humberto Sinibaldi Neto é uma delas. Aos 87 anos, o ator, diretor, professor, gestor cultural, cirurgião-dentista e arquiteto carrega uma trajetória que se confunde com a própria história do teatro em Rio Preto. Foi um dos pioneiros das artes cênicas na região e um dos idealizadores do Festival Internacional de Teatro (FIT), evento que projetou o município no cenário cultural brasileiro e transformou Rio Preto em referência nacional. A partir da próxima quinta-feira, dia 16, quando a cidade volta a respirar teatro com mais uma edição do FIT, sua história ganha ainda mais significado.
A paixão pelos palcos caminhou lado a lado com outras profissões. Formado em Odontologia em 1963, exerceu a carreira por décadas. Mais tarde, já na maturidade, realizou outro sonho ao concluir a graduação em Arquitetura e Urbanismo. Mas foi no teatro que encontrou sua maior vocação. Ao longo de mais de seis décadas, dirigiu espetáculos, formou gerações de artistas, idealizou projetos e ajudou a consolidar uma política cultural que deixou marcas permanentes na cidade.
O compromisso com a cultura ultrapassou os palcos. Humberto também integra a Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec), onde segue contribuindo para a preservação da memória e para a valorização da produção artística e intelectual da cidade.
O reconhecimento veio em vida. O principal palco público de Rio Preto leva seu nome, uma homenagem à dedicação de quem transformou a cultura em missão.
Casado há 62 anos com Ângela Maria Santos Sinibaldi, pai de cinco filhos e apaixonado por livros, reflexão e programas culturais, Humberto fala com serenidade sobre o passado, sem perder o entusiasmo pelo futuro. Nesta entrevista à Revista Bem-Estar, ele revisita memórias, compartilha os bastidores da criação do FIT, reflete sobre o papel transformador da arte e deixa uma mensagem às novas gerações: o teatro continua sendo um espaço de encontro, sensibilidade e esperança.
Leia a seguir:
BE – Depois de uma vida inteira dedicada ao teatro, o que ainda consegue emocioná-lo quando as luzes do palco se acendem?
Humberto Sinibaldi Neto – É uma emoção muito grande. Naquele instante, toda a minha trajetória vem à memória. Eu também fui ator e diretor, então o palco tem um significado muito especial para mim. É um lugar sagrado. Quando as luzes se acendem, a gente se transporta para dentro da cena, junto com os atores. É uma sensação difícil de descrever, única e sempre emocionante.
BE – O FIT nasceu de um sonho que parecia ousado. Hoje, qual é o maior desafio para manter a cultura viva e relevante?
Humberto Sinibaldi Neto – Perseverança. Acho que essa é a palavra que resume tudo. É preciso insistir, lutar e convencer, sempre no bom sentido, para que os projetos culturais aconteçam. Se não houver perseverança, eles simplesmente não sobrevivem.
Nós mantivemos o festival de 1969 a 2000 com recursos muito limitados. Para se ter uma ideia, todo o dinheiro investido nesse período não chegou ao orçamento de uma única edição do festival nos moldes atuais. Era um trabalho movido pela dedicação.
BE – E como vocês conseguiam realizar um evento desse porte com tão poucos recursos?
Humberto Sinibaldi Neto – Muito graças às parcerias da cidade. Eram apoios simples, mas fundamentais. Montávamos alojamentos e uma cozinha para receber todos os participantes. Cada parceiro ajudava como podia: um doava arroz, outro feijão, outro carne, frango, frutas ou sobremesa. Às vezes conseguíamos algum recurso do governo, mas era muito pouco. O que mantinha o festival de pé era o envolvimento da comunidade.
BE – E como nasceu a ideia de criar o FIT? O senhor se lembra desse momento?
Humberto Sinibaldi Neto – Lembro perfeitamente. Nós tínhamos um grupo chamado Teatro Jovem e montamos “A Mandrágora”. Levamos o espetáculo para um festival estadual e fomos vencedores. Depois fomos convidados para representar o interior paulista em um festival em São Carlos e conquistamos novamente o primeiro lugar.
Quando voltamos para Rio Preto, fomos entregar o troféu ao então prefeito, Adail Vetorazzo, que era um grande incentivador da cultura e também meu amigo. Eu perguntei a ele: "Por que não fazemos um festival de teatro em Rio Preto?". Ele quis saber quanto custaria. Fiz uma estimativa e ele respondeu na hora: "Pode fazer".
Saímos daquela conversa, em maio, e já em junho realizamos a primeira edição do festival.
BE – O senhor imaginava que aquela iniciativa se transformaria em um dos maiores festivais de teatro do País?
Humberto Sinibaldi Neto – De jeito nenhum. O que queríamos era criar um espaço para o teatro. Mas, com muito trabalho, seriedade e perseverança, o festival foi conquistando respeito. Sempre tivemos compromisso com a qualidade, com a honestidade e com a credibilidade. Foi isso que fez o FIT crescer e se transformar na referência que é hoje.
BE – O teatro ensina muito sobre a vida. Qual foi a maior lição que os palcos lhe deram fora deles?
Humberto Sinibaldi Neto – A maior lição foi aprender a viver. O teatro me ensinou a compreender melhor as pessoas, a enfrentar os medos, a me comunicar e a vencer a timidez. Tudo isso ficou para trás, graças ao palco. Além disso, o teatro estimula a imaginação de uma forma extraordinária. Você recorre à memória afetiva, às experiências do passado, mistura tudo isso e transforma em uma grande cena. Essa capacidade de criar e dar sentido às emoções é uma das maiores lições que o teatro me deixou.
BE – O senhor acredita que a arte tem o poder de transformar uma cidade? Em que sentido?
Humberto Sinibaldi Neto – Sem dúvida. O maior exemplo é o próprio FIT. Quando começamos, o festival acontecia praticamente dentro da Casa de Cultura e do Teatro Municipal. Com o passar dos anos, ele foi ocupando outros espaços, crescendo e envolvendo toda a cidade.
A população abraçou o festival, porque percebeu que não era apenas um evento, mas um projeto sério, feito com responsabilidade e compromisso com a cultura. Isso transformou a relação de Rio Preto com o teatro.
Hoje, a cidade é reconhecida como uma referência das artes cênicas no interior de São Paulo. Muitos festivais surgiram na mesma época e deixaram de existir. O FIT permaneceu e se consolidou. Isso mostra a força da arte quando há perseverança, seriedade e o envolvimento da comunidade.
BE – Como é entrar em um teatro que leva o seu nome? Isso representa mais orgulho, responsabilidade ou uma mistura dos dois?
Humberto Sinibaldi Neto – É uma mistura dos dois. Tenho um orgulho enorme, mas também sinto uma grande responsabilidade. O curioso é que muita gente acha que eu sou o dono do teatro. Ainda hoje recebo ligações de pessoas pedindo ingressos, e preciso explicar que não sou o dono, apenas tenho a honra de dar nome ao espaço.
Foi uma homenagem que me surpreendeu muito. Tudo aconteceu em sigilo. O teatro passou por uma reforma e, quando foi reaberto, recebi a notícia de que passaria a levar o meu nome. Foi uma emoção imensa e um reconhecimento que jamais imaginei receber. Até hoje, cada vez que entro ali, sinto uma enorme satisfação e muito orgulho.
BE – Se pudesse escolher um espetáculo para assistir novamente, qual seria e por quê?
Humberto Sinibaldi Neto – "O Balcão", por exemplo, era uma verdadeira surpresa. A encenação ocupava três ou quatro andares do teatro, numa explosão de criatividade. "Cemitério de Automóveis" tinha um elenco extraordinário, e "O Arquiteto" e o "Imperador da Assíria" contava com um protagonista simplesmente fantástico. São montagens que marcaram a minha vida e que eu assistiria novamente sem pensar duas vezes.
Mas há um espetáculo que tem um significado ainda mais especial para mim: "A Muralha da China", de Max Frisch. Foi com essa montagem que recebi o prêmio de melhor diretor, concedido por sete governadores de Estado. Por isso, ela ocupa um lugar único na minha trajetória.
BE – Existe algum personagem, texto ou projeto que o senhor nunca realizou e que ainda desperta vontade?
Humberto Sinibaldi Neto – Como ator, sempre tive vontade de interpretar o “Rei Lear”, de Shakespeare. É um personagem extraordinário, de uma profundidade impressionante, um grande desafio para qualquer ator.
Como diretor, sempre me atraíram as comédias. Dirigi “A Megera Domada”, também de Shakespeare, uma experiência fantástica, e também gostaria de ter montado obras como "A Mandrágora", além de dirigir textos de Dias Gomes e Ariano Suassuna. No fim das contas, considero que tive o privilégio de dirigir e interpretar muitos dos grandes clássicos do teatro mundial. Olhando para a minha trajetória, sinto que consegui realizar a maior parte dos sonhos que tinha para a vida artística.
BE – Em tempos de redes sociais e consumo rápido de conteúdo, o teatro precisa se reinventar ou sua força continua justamente na experiência ao vivo?
Humberto Sinibaldi Neto – A força do teatro continua justamente na experiência ao vivo. O teatro é uma arte viva, baseada na troca de energia entre os atores e o público. Essa conexão é algo único e insubstituível. Ao longo da história, muita gente disse que o teatro acabaria. Primeiro veio o cinema, e o teatro permaneceu. Depois surgiu a televisão, e ele continuou forte. Não por acaso, muitos dos grandes atores da televisão vieram do teatro.
A magia do teatro está justamente nisso. Existe a magia da cenografia, dos atores, dos personagens e da própria história. Tudo isso se une para emocionar, fazer o público acreditar, refletir e viajar por mundos que só a imaginação é capaz de criar. As redes sociais podem ter seu espaço, mas não substituem essa experiência única que só o teatro proporciona.
BE – Entre tantos papéis que desempenhou – ator, diretor, professor, gestor cultural e idealizador de projetos, dentista, arquiteto – qual deles mais o define como pessoa?
Humberto Sinibaldi Neto – Também fui professor de gastronomia. Acho que o que mais me define é a vontade de fazer dar certo. Em todas as funções que exerci, seja como ator, diretor, professor e gestor cultural, sempre procurei deixar alguma coisa para a cidade e ajudar a fortalecer a cultura. Tenho orgulho de ter dado a minha contribuição para que Rio Preto se tornasse a referência cultural que é hoje.
Sempre encarei a arte com seriedade e profissionalismo. Ao longo da vida, também exerci minha profissão fora do teatro, conciliando diferentes atividades, mas nunca deixei de acreditar que a cultura é capaz de transformar as pessoas e a comunidade. Essa talvez seja a marca mais forte da minha trajetória.
BE – Se o Humberto de hoje encontrasse o jovem que sonhava transformar a cultura de Rio Preto, o que diria a ele?
Humberto Sinibaldi Neto – Eu diria que valeu a pena. Acho que deixei um legado. Pelas minhas mãos passaram muitos jovens, e vários deles seguiram carreira no teatro e venceram na vida. Isso me dá uma alegria enorme. Espero ter transmitido, acima de tudo, dedicação, amor e respeito pela arte.
Em muitos momentos, precisei dividir meu tempo entre a minha família e o teatro. Nunca abandonei minha família, mas também dediquei uma parte muito importante da minha vida ao teatro, porque acreditava que ele podia transformar pessoas. Foi uma escolha feita com muito amor.
Hoje, aos 87 anos, o corpo já pede um ritmo diferente. O cansaço, a idade e algumas limitações fazem com que eu esteja mais recolhido. Mas continuo vivendo das lembranças, com a certeza de que tudo o que construí valeu a pena e de que a cultura sempre foi a grande paixão da minha vida.
BE – Que conselho o senhor daria para quem está começando a carreira no teatro?
Humberto Sinibaldi Neto – O primeiro conselho é estudar. Teatro exige muito estudo, dedicação e disciplina. O talento, sozinho, não basta. É preciso estar sempre aprendendo e buscando crescer.
Também diria para nunca deixar que a vaidade suba à cabeça. Um grande ator é, antes de tudo, uma pessoa humilde, consciente do seu papel e respeitosa com o trabalho coletivo. O teatro não se faz sozinho. É essa humildade que permite ao artista evoluir e construir uma carreira sólida.
