Arquiteto e urbanista com uma trajetória marcada pela atuação técnica e pela participação na vida pública, José Carlos de Lima Bueno construiu sua carreira entre projetos arquitetônicos, planejamento urbano e gestão municipal. Formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Brasília (UnB), em um período em que a instituição era dirigida por Oscar Niemeyer, aprofundou sua formação com mestrado e doutorado na Universidade de São Paulo (USP), dedicando-se especialmente aos estudos sobre planejamento urbano.
Sua relação com o trabalho começou cedo. “Minha trajetória começou antes mesmo da universidade. Aos 12 anos, eu já trabalhava com meu pai, que teve uma influência decisiva na minha formação. Aos 14 anos, fui projetista rodoviário no Departamento de Estradas de Rodagem (DER) e, durante a faculdade, também lecionei matemática e desenho.”
Ao longo da carreira, participou de inúmeros projetos arquitetônicos e concursos, muitos deles desenvolvidos em parceria com o sócio, o arquiteto Ézio Graci de Oliveira. “Desde o início, meu principal campo de interesse foi o planejamento urbano. Gosto muito da arquitetura e tenho inúmeros projetos realizados, mas considero o planejamento urbano ainda mais importante, porque ele trata a cidade como um processo contínuo e coletivo.”
Embora tenha diversos edifícios e obras no currículo, Lima Bueno sempre considerou o planejamento urbano como o eixo central de sua atuação. Para ele, a cidade é um processo permanente, que envolve cultura, interesses e necessidades humanas, e exige visão coletiva e continuidade.
Além da carreira acadêmica e profissional, também teve participação na política e na administração pública de Rio Preto. Foi secretário municipal de Planejamento entre 1977 e 1982, na gestão de Adail Vetorazzo; vereador na legislatura de 1993 a 1996 e secretário municipal de Meio Ambiente em dois períodos, de 2002 a 2006, na gestão de Edinho Araújo, e de 2009 a 2013, na gestão de Valdomiro Lopes da Silva Júnior. Também ocupou a Secretaria de Agricultura e Abastecimento entre novembro de 2010 e fevereiro de 2011, também no governo Valdomiro.
Lima Bueno é casado pela segunda vez há 25 anos com Maria Adélia Espinha de Lima Bueno. Do primeiro casamento, tem quatro filhas, Ceci, Inaie, Moema e Inara e, do segundo, dois enteados, Henrique e Rodrigo. A família se estende ainda aos sete netos: Bernardo, Micael, Diogo, Danilo, Miguel, Joaquim e Vitor, sendo que um deles foi criado pelo casal como um filho-neto.
Hoje, olhando para sua trajetória, Lima Bueno diz que ainda se considera em processo de realização. “Tenho muita satisfação pelo que construí, mas não vejo a profissão como algo concluído. É um caminho contínuo”. Para ele, o trabalho com a cidade nunca se encerra: enquanto houver cidades, haverá também novos desafios a enfrentar.
Leia a entrevista a seguir:
BE – Quais valores pessoais da sua história influenciam suas decisões profissionais até hoje?
Lima Bueno – A ética é o valor central da minha vida, um princípio que aprendi com meu pai. Ele sempre foi extremamente ético e me ensinou que qualquer trabalho precisa ser feito da melhor forma possível. A ética permeia tudo o que faço. Além disso, acredito na responsabilidade coletiva: a cidade não pertence a um prefeito ou a um partido, mas a todos. Por isso, as decisões devem sempre considerar o bem comum.
BE – Existe algum projeto da sua trajetória profissional do qual o senhor tem orgulho especial?
Lima Bueno – Tenho vários momentos marcantes na minha trajetória. Um deles foi ainda na universidade, quando desenvolvemos, como trabalho final de curso, o Plano Diretor de São José do Rio Preto, feito em equipe. Praticamente montamos um escritório para elaborar o projeto: foram 67 pranchas, uma maquete da cidade e um estudo bastante aprofundado. A universidade organizou uma exposição e um jornalista da Folha de São Paulo publicou uma página inteira sobre o trabalho no primeiro caderno do jornal.
Esse reconhecimento acabou abrindo portas para minha atuação profissional em Rio Preto. Logo que saí da faculdade, meu primeiro grande trabalho foi o projeto do Distrito Industrial. Outro projeto muito marcante foi o concurso da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep), na década de 1970. Era um projeto de grande porte, vencemos em primeiro lugar e, até hoje, a marca da universidade tem como referência o edifício que projetamos. Também destaco o ginásio de esportes de Ilha Solteira e outros edifícios em estrutura metálica que tiveram ampla divulgação em revistas técnicas. Porém, um dos trabalhos que mais me orgulha, especialmente na área urbana, foi o Plano de Desenvolvimento de São José do Rio Preto, elaborado no governo do prefeito Adail Vetorazzo. Desse plano surgiram, entre outras iniciativas, os minidistritos industriais, que depois foram multiplicados e replicados em várias cidades do Brasil.
BE – A casa da família Estrella, que leva sua assinatura, será palco de um Outlet Multissetorial Premium. Como foi realizar esse projeto?
Lima Bueno – A Casa da Família Estrela foi um grande aprendizado para mim. Foi um projeto profundamente participativo, no qual a família esteve muito presente em todo o processo, especialmente a esposa, que conhecia minuciosamente os hábitos e os desejos de todos. Costumo dizer que arquitetura não é apenas técnica, é também arte. Se não emociona, não é arquitetura, é apenas construção. O marido tinha uma forte influência da arquitetura hispânica e da Califórnia, nos Estados Unidos, onde estudou. Essa referência ibérica, com pátio interno e espaços voltados para a convivência, acabou se tornando o conceito central do projeto. A casa foi organizada em torno desse pátio interno e se desenvolve em sete níveis, articulados por planos horizontais e verticais, além de contar até com um elevador interno. No fundo, todo o conceito da casa gira em torno da convivência. É uma casa pensada para ser viva.
BE – Como a prática da arquitetura contribuiu para sua visão de cidade durante sua atuação como secretário de Meio Ambiente e Urbanismo (2003–2006 e 2009–2010)?
Lima Bueno – Minha formação como arquiteto me ensinou a trabalhar com o “cliente”. Na gestão pública, esse cliente é a população. Atuei nos três níveis de governo, o que ampliou minha visão regional e nacional. Fui diretor regional de planejamento do Estado e participei de programas ligados ao Plano Nacional de Desenvolvimento Urbano. Nesse período, Rio Preto foi a única cidade paulista selecionada para receber investimentos financiados pelo Banco Mundial. Como secretário, enfrentei um dos maiores desafios ambientais da cidade: a gestão de resíduos. Implantamos melhorias no sistema de lixo urbano e estruturamos a coleta seletiva com um forte componente social, organizando cooperativas de catadores e garantindo mais dignidade a esses trabalhadores. Também implantamos o sistema de gestão de resíduos da saúde, envolvendo médicos, dentistas, veterinários, o Ministério Público e a Cetesb. Foi um trabalho coletivo, que acabou sendo reconhecido nacionalmente. A arquitetura me deu método, capacidade de escuta, articulação e uma visão espacial que pude aplicar também na gestão pública.
BE – Onde Rio Preto avançou e onde ainda precisa avançar em urbanismo e meio ambiente?
Lima Bueno – O maior avanço recente é o fortalecimento da governança colaborativa. A cidade começa a compreender que o planejamento urbano é uma responsabilidade coletiva. O grande desafio, porém, ainda é consolidar políticas públicas de Estado, e não apenas políticas de governo. A cidade precisa de continuidade, de planejamento sequencial e de maior consciência coletiva. Sem esse espírito de coletividade, não há planejamento duradouro.
BE – Se pudesse definir em uma frase a cidade ideal para as próximas gerações, qual seria?
Lima Bueno – A cidade ideal é aquela em que a coletividade assume que o espaço urbano é de todos, do varredor de rua ao prefeito, e que os recursos públicos devem servir à justiça social, à dignidade humana e ao bem comum. A cidade é um espaço coletivo. Quando essa consciência for plena, teremos cidades melhores.
