Ao longo de uma carreira construída na intersecção entre negócios, tecnologia e comportamento, Silvia Belluzzo ajudou grandes empresas a transformar inovação em crescimento. Executiva com experiência em estratégias de Go-to-Market, crescimento regional, parcerias estratégicas, lançamentos de produtos, comercialização e transformação de negócios, ela já esteve à frente de projetos em empresas globais como TikTok, HP e Accor.
Sua trajetória reúne diferentes áreas: estratégia de negócios, crescimento, Inteligência Artificial, produto, parcerias, marketing, sucesso do cliente e operações de receita — sempre com o desafio de transformar produtos inovadores em resultados comerciais escaláveis. Nos últimos cinco anos, esteve no TikTok, onde se dedicou a levar o ecossistema da plataforma para pequenas e médias empresas na América Latina. Agora, encerra esse ciclo para iniciar uma nova etapa profissional sem se afastar do universo que a aproximou da Creator Economy e do empreendedorismo: acaba de lançar a Voz Casa Criativa.
Se o trabalho a colocou diante de algoritmos, dados, tendências e disputas cada vez maiores pela atenção, Silvia mantém uma convicção que atravessa sua experiência: são as pessoas que continuam no centro das conexões. Para ela, relevância vale mais do que velocidade, autenticidade não pode ser fabricada e, diante do avanço da inteligência artificial, características como empatia, coragem, escuta e capacidade de fazer boas perguntas ganham ainda mais importância.
Esse olhar também se constrói longe das reuniões e das métricas. Viajar, caminhar por cidades, descobrir cafeterias, ler, conversar e, principalmente, estar com as filhas fazem parte de uma rotina que alimenta sua criatividade e a ajuda a desacelerar. A maternidade, aliás, ocupa um lugar especial em sua visão sobre liderança e vida:
“Ser mãe da Helena e da Marina é minha maior escola de liderança, empatia e adaptação. Elas me lembram diariamente que nem tudo pode ser planejado e que muitas vezes é justamente aí que estão os melhores aprendizados.”
Nesta conversa com a Bem-Estar, Silvia fala sobre o que realmente consegue prender sua atenção, os impactos do consumo acelerado de conteúdo, autenticidade, vulnerabilidade, inteligência artificial, liderança, criatividade e o desafio de transformar conhecimento em prática. Mais do que discutir o futuro da comunicação, ela reflete sobre algo que permanece essencial em qualquer época: a capacidade de criar conexões verdadeiras.
Leia a seguir:
Bem-Estar — Você trabalha justamente em uma plataforma que disputa a atenção das pessoas. O que ainda consegue prender a sua atenção de verdade?
Silvia Belluzzo — Bem, a novidade é que eu deixei o TikTok, depois de 5 anos me dedicando a levar esse ecossistema completo a pequenas e médias empresas na América Latina. Mas o TikTok nunca sairá de mim por ter me inserido na Creator Economy e ainda mais por me fazer mergulhar no universo do empreendedorismo. E justo por isso, mesmo seguindo minha carreira como executiva, eu estou lançando a Voz Casa Criativa para seguir conectada a esse universo. E isso me leva à sua pergunta. O que mais prende a minha atenção continua sendo gente. Pessoas apaixonadas pelo que fazem, empreendedores construindo algo do zero, especialistas que ensinam com generosidade e histórias capazes de mudar a forma como enxergamos o mundo. Apoiar esses negócios é apoiar as pessoas por trás dessas empresas. Esse é o propósito da Voz. A tecnologia muda muito rápido, mas boas histórias continuam sendo o que mais conecta pessoas. Acho que essa é uma verdade que atravessa qualquer plataforma.
BE — O TikTok transformou a lógica de consumo de conteúdo. O que você acha que as pessoas perderam — ou ganharam — ao passar a consumir informação em vídeos cada vez mais rápidos?
Silvia Belluzzo — Acho que ganharam acesso. Hoje alguém pode aprender um idioma, descobrir uma profissão, entender investimentos ou começar um negócio a partir de um vídeo de poucos segundos. Isso democratizou muito o conhecimento. Por outro lado, velocidade não substitui profundidade. O desafio não é consumir conteúdo curto; é achar que ele, sozinho, basta. Os vídeos rápidos despertam curiosidade. O aprofundamento continua dependendo da nossa disposição para estudar, questionar e refletir.
BE — Você defende que as marcas precisam ser autênticas. Mas é possível ser verdadeiramente autêntico quando existe uma estratégia por trás de cada publicação?
Silvia Belluzzo — Eu acho que autenticidade e estratégia não competem entre si. Estratégia define como você vai se comunicar. Autenticidade define o que vale a pena comunicar e como você se posiciona. A estratégia muda constantemente, até porque as necessidades de negócio mudam. Já a sua autenticidade sempre permanece e ela cria a conexão com a comunidade. O problema acontece quando a estratégia sugere fabricar uma personalidade que não existe e, infelizmente, vejo muita gente ensinando autenticidade como se fosse apenas um modelo a ser seguido, como forma de bolo (sabe o clássico terninho e batom vermelho? Ou, no universo masculino, a prosperidade refletida por carros e relógios? As pessoas percebem isso muito rápido. E algumas coisas não mudam. Pessoas compram de pessoas. Eu falei disso no evento da Prospecta. 70% das decisões de consumo são impulsionadas por fatores emocionais. As marcas mais fortes que conheci têm um posicionamento claro antes mesmo de abrir o calendário de conteúdo.
BE — Qual foi a maior surpresa que o comportamento dos usuários do TikTok já revelou para você?
Silvia Belluzzo — Que vulnerabilidade gera muito mais conexão do que perfeição. Durante muito tempo acreditamos que a comunicação precisava ser impecável. O TikTok mostrou justamente o contrário. As pessoas se identificam com quem ensina enquanto aprende, compartilha processos e conversa como gente de verdade. Isso mudou completamente a forma como muitas empresas passaram a produzir conteúdo.
BE — Existe algum tipo de conteúdo que você jamais imaginaria que faria sucesso e acabou se tornando fenômeno?
Silvia Belluzzo — O que mais me surpreendeu foi perceber que conteúdos extremamente específicos conseguem encontrar audiências enormes. Antes imaginávamos que era preciso falar para todo mundo. Hoje vemos criadores construindo comunidades gigantes falando sobre jardinagem, tricô, planilhas, marcenaria, matemática ou qualquer outro tema que parecesse "de nicho". A internet deixou de premiar quem fala com milhões para premiar quem fala profundamente com alguém. E o foco saiu da figura do “influencer” e sim sobre o que se fala. Por isso mesmo, no TikTok tínhamos a cultura de falar do Criador, ao invés do influenciador.
BE — Você fala muito sobre dados na tomada de decisões. Em que situações ainda prefere confiar na intuição?
Silvia Belluzzo — Principalmente quando estou falando de pessoas. Dados ajudam muito a entender comportamento, priorizar investimentos e medir resultados. Mas contratar alguém, construir uma parceria ou apostar em uma liderança ainda envolve algo que nenhuma planilha consegue explicar completamente. Minha intuição normalmente nasce da experiência acumulada. Não é o oposto dos dados; é uma consequência deles ao longo dos anos. Mas, ainda assim, vejo que decisões, sempre que existam dados, devem ser tomadas em consideração, nunca isoladamente.
BE — Com a inteligência artificial assumindo cada vez mais tarefas, o que você considera uma qualidade essencialmente humana que o mercado não pode perder?
Silvia Belluzzo — A capacidade de fazer boas perguntas. A IA ficou extraordinária em encontrar respostas, organizar informações e acelerar a execução. Mas continua sendo responsabilidade humana decidir qual problema merece ser resolvido. Também acredito muito em empatia e na capacidade de navegar ambiguidades. O mundo dos negócios dificilmente oferece respostas perfeitas. Ele oferece contextos complexos, interesses diferentes e decisões difíceis. É justamente aí que o fator humano continua sendo insubstituível.
BE — Trabalhar diariamente com tendências significa estar sempre olhando para o que vem pela frente. Você consegue se desconectar do futuro e simplesmente viver o presente?
Silvia Belluzzo — Confesso que minha cabeça está quase sempre imaginando possibilidades. Isso fala muito sobre meu próximo passo de carreira também. Menos sobre tecnologia isoladamente e mais para “para onde ainda não estão olhando com a atenção devida?” Tenho facilidade para enxergar conexões e isso faz parte da forma como trabalho. Mas aprendi que criatividade também precisa de pausa. Muitas das minhas melhores ideias surgiram viajando, caminhando ou simplesmente conversando sem nenhuma intenção profissional. Hoje tento proteger esses momentos porque percebi que produtividade também depende de descanso.
BE — Qual é o hábito digital que você gostaria de abandonar, mas ainda não conseguiu?
Silvia Belluzzo — A vontade de salvar conteúdos "para ver depois". Tenho coleções enormes de artigos, vídeos e referências. Na prática, percebi que conhecimento só gera transformação quando sai da lista de favoritos e entra na rotina. Então, meu desafio hoje não é consumir mais conteúdo. É executar mais do que já aprendi.
BE — Depois de tantos anos trabalhando com marketing e comportamento, qual é o maior clichê sobre o consumidor que você gostaria de derrubar?
Silvia Belluzzo — A ideia de que as pessoas têm pouca atenção. Eu não acredito nisso. As pessoas têm pouca paciência para aquilo que não gera valor. Quando um conteúdo emociona, ensina e diverte, elas assistem até o final, compartilham e ainda voltam para rever. O problema nunca foi atenção. Sempre foi relevância.
BE — Se pudesse escolher uma única pessoa, brasileira ou estrangeira, para criar uma campanha com você, quem seria?
Silvia Belluzzo — Eu não diria campanha, mas collab. Sem dúvida, Brené Brown. Ela consegue transformar temas profundamente humanos, como vulnerabilidade, coragem e pertencimento, em conversas que provocam reflexão e mudam a forma como lideramos e nos relacionamos. Antes de conhecer o trabalho dela, eu via muitas das minhas vulnerabilidades como algo que precisava controlar. Sempre fui uma líder muito próxima das pessoas e, por muito tempo, me perguntei se isso não me tornava "humana demais" para o ambiente corporativo. A Brené me ajudou a entender que vulnerabilidade não é falta de força. É coragem. E que liderar não significa ter todas as respostas, mas criar um ambiente em que as pessoas se sintam seguras para crescer, errar e contribuir. Adoraria fazer uma collab com ela sobre liderança na era da inteligência artificial. Quanto mais a tecnologia evolui, mais acredito que as habilidades humanas serão o verdadeiro diferencial. Empatia, coragem, escuta e autenticidade não são características "soft". São competências estratégicas para formar times, construir cultura e gerar inovação.
BE — O que você gosta de fazer em momentos de lazer?
Silvia Belluzzo — Viajar é uma das minhas maiores fontes de inspiração. Gosto de conhecer cidades caminhando, descobrir cafés, livrarias e conversar com pessoas. E eu consegui fazer de um hábito minha melhor forma de fazer um estudo de campo: buscar as melhores cafeterias de todos os destinos que vou. Primeiro porque sou obcecada por cafés especiais. Não qualquer um, sempre quero os melhores grãos (risos). E, segundo, porque não tem campo antropológico melhor que esse para conhecer a vida local. Lá, raramente são os lugares mais cheios de turistas. Eu me misturo nos locais em que se pega um café antes ou durante um dia de trabalho. Vejo seus hábitos me inserindo em suas rotinas.
Também adoro ler, especialmente livros que me fazem enxergar comportamento humano por outras perspectivas.
E, acima de tudo, gosto de passar tempo com minhas filhas. Elas me lembram diariamente da importância da curiosidade, da criatividade e de viver o presente. Sou a mãe que deixa as crianças usarem a casa e dormirem comigo, e acho isso libertador. Sou nostálgica e não paro de pensar que um dia a casa ficará arrumada e a cama vazia será de fato um incômodo real.
Curiosamente, boas conversas também fazem parte do meu lazer. Sou apaixonada por ouvir histórias e entender como as pessoas pensam.
BE — Fora dos algoritmos, das métricas e das reuniões, o que faz você se sentir realmente realizada?
Silvia Belluzzo — Ver alguém ganhar confiança. Pode ser um empreendedor encontrando sua voz, uma profissional assumindo um novo desafio ou alguém percebendo que tem muito mais potencial do que imaginava. Ao longo da minha carreira, percebi que meu maior propósito nunca foi apenas construir marcas. Foi ajudar pessoas a construírem a própria presença. Porque comunicação não é sobre aparecer. É sobre permitir que o valor que já existe finalmente seja visto.
