Com uma trajetória construída na educação pública, o engenheiro eletricista Marcos Amorielle assumiu a direção-geral do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) – Campus São José do Rio Preto, trazendo a experiência de quem já esteve à frente de importantes projetos acadêmicos e de gestão dentro da instituição. Graduado, mestre e doutor em Engenharia Elétrica pela Unesp, ele acumula mais de duas décadas de atuação no ensino e na formação profissional.
Casado há 20 anos com Adriana Antonia da Cruz Furini e pai de Marina, de 18 anos, e Fernanda, de 15, Marcos concilia a dedicação à educação com momentos de lazer ao lado da família, viagens e leitura.
Para ele, a maior recompensa da carreira está no impacto gerado na vida dos estudantes. "Sinto-me realizado enquanto servidor público e educador do Instituto Federal de São Paulo; contribuir para a formação profissional e cidadã das pessoas é extremamente satisfatório."
Marcos fala sobre a importância do IFSP para o desenvolvimento regional, os desafios do ensino técnico e tecnológico no Brasil, a preparação dos jovens para a era da inteligência artificial e os planos de expansão do campus rio-pretense nos próximos anos.
Leia a entrevista a seguir:
BE – O senhor assumiu a direção-geral do IFSP Rio Preto após uma trajetória importante em outras unidades do Instituto Federal. Quais experiências anteriores mais contribuem para sua atuação hoje no campus de Rio Preto?
Marcos Amorielle – Acredito que toda vivência, seja na trajetória profissional ou pessoal, contribui para a atuação no ambiente educacional, em especial na formação de pessoas para além da atuação técnica, que é a proposta do Instituto Federal. Nesse contexto, ressalto os valores e o respaldo que tive dos meus pais, Sandra Mara Amorielle Furini e Décio Furini, para minha formação humana. Do ponto de vista profissional, destaco a formação acadêmica em uma instituição pública como a Unesp.
Dentre as experiências profissionais, ressalto que a atuação na direção-geral do Campus Votuporanga do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), por oito anos, foi desafiadora. Em conjunto com a equipe de servidores, iniciamos a oferta de cursos técnicos integrados ao ensino médio, cursos de bacharelado e licenciatura. Além disso, a participação em processos como reconhecimento de cursos e a viabilização do processo de ensino-aprendizagem durante a pandemia também foram desafios que contribuíram muito para minha atuação no Campus São José do Rio Preto do IFSP.
Por fim, a atuação no Conselho de Ensino e no Conselho Superior do IFSP desde 2016 me proporciona um aprendizado contínuo, amplo e rico enquanto educador.
BE – O IFSP tem papel fundamental na formação técnica e tecnológica da região. Como o senhor avalia atualmente a importância do campus de Rio Preto para o desenvolvimento regional?
Marcos Amorielle – O Plano de Desenvolvimento Institucional do Campus São José do Rio Preto foi construído de forma ampla e participativa ao longo dos anos, por meio de audiências públicas e reuniões com entidades e representantes da sociedade civil desde 2018. Portanto, os cursos presentes nesse planejamento estão alinhados às expectativas de desenvolvimento da cidade e da região.
Em consonância com esse planejamento, a proposta educacional do IFSP é baseada na indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão como formas de construção do conhecimento. Portanto, nossos estudantes possuem uma formação técnica e tecnológica sólida, mas também uma formação crítica, humana e cidadã para além da sala de aula, com possibilidade de atuação em projetos de ensino, pesquisa e extensão desde o ingresso, aplicando conceitos na solução de demandas reais para o desenvolvimento regional.
BE – Quais são hoje os principais desafios enfrentados pelo ensino público técnico e tecnológico no Brasil?
Marcos Amorielle – Acredito que, ao longo dos anos, muitos desafios foram superados, em especial a valorização da educação profissional para além da atuação puramente técnica. Entretanto, vejo que ainda é necessário avançar no reconhecimento das potencialidades dos egressos da educação técnica e tecnológica, o que passa pela aproximação e efetiva articulação das instituições de ensino com o mundo do trabalho.
Além disso, um dos principais desafios para as instituições públicas de educação é a garantia de suporte orçamentário, de tal forma que sua atuação seja potencializada. Nesse contexto, as instituições públicas de ensino devem ser compreendidas, conforme preconizado em sua criação, como políticas públicas voltadas à sociedade, em especial às pessoas que historicamente não tiveram acesso a uma educação de qualidade.
BE – O senhor possui formação e atuação acadêmica na área de Engenharia Elétrica e sistemas de potência. De que forma essa experiência científica influencia sua visão de gestão educacional?
Marcos Amorielle – A formação científica se caracteriza como um dos principais pilares para a produção do conhecimento nas instituições de ensino, independentemente da área de atuação. Por meio dessa formação, promovem-se condições para a análise crítica e racional dos desafios e das formas de superá-los.
Mas destaco que a atuação como professor do Instituto Federal e a compreensão do seu papel enquanto política pública foram as principais contribuições para o desenvolvimento de uma gestão educacional alinhada ao projeto de educação para o qual os Institutos Federais foram criados.
BE – O IFSP Rio Preto vem ampliando cursos e projetos nos últimos anos. Quais são as principais metas e prioridades da atual gestão?
Marcos Amorielle – A atuação do IFSP é muito ampla e, para que nossa missão seja efetivamente cumprida, a prioridade da gestão é a estruturação do quadro de servidores. Com isso, será possível consolidar e diversificar a oferta dos cursos técnicos integrados ao ensino médio, bem como iniciar a oferta de cursos de graduação e pós-graduação, o que consequentemente contribuirá para o desenvolvimento de projetos de ensino, pesquisa e extensão com foco nas demandas locais e no atendimento dos arranjos produtivos, culturais e sociais locais e regionais.
As perspectivas são muito boas devido à recente aprovação da Lei 15.367/2026, que cria milhares de códigos de vagas para professores e técnico-administrativos nos Institutos Federais de todo o Brasil.
BE – Como o campus trabalha para aproximar os estudantes do mercado de trabalho e das demandas das empresas da região?
Marcos Amorielle – O IFSP busca a interação com empresas e indústrias da cidade e da região de diversas formas. Nossa autonomia pedagógica na criação de cursos e formações específicas para as demandas locais é um grande diferencial e tende a fortalecer a relação com o setor produtivo.
Visitas técnicas e o desenvolvimento de soluções por meio de projetos de extensão e pesquisa aplicada também são diferenciais que proporcionam uma conexão dos estudantes com a realidade local.
BE – Na sua avaliação, quais competências os jovens precisam desenvolver hoje além da formação técnica?
Marcos Amorielle – O mundo do trabalho demanda profissionais que possuam formação tecnológica sólida, mas nota-se que somente isso não é suficiente. Entendo que a principal característica a ser desenvolvida é a busca contínua pelo conhecimento, qualificando-se e estudando sempre.
Além disso, atuação ética, escuta, diálogo, respeito às diferenças e capacidade de adaptação diante de desafios cada vez mais complexos são competências cada vez mais necessárias para que o profissional atue de maneira efetiva e significativa na sociedade.
BE – Como o IFSP prepara os alunos para as mudanças trazidas pela inteligência artificial e pela automação?
Marcos Amorielle – Os eixos tecnológicos dos cursos ofertados pelo Campus São José do Rio Preto do IFSP estão totalmente alinhados à aplicação da inteligência artificial. O campus oferece cursos nas áreas de informática e automação industrial. Portanto, a abordagem desses conceitos nas componentes curriculares, bem como o desenvolvimento de projetos integradores que demandam uma visão sistêmica e global do estudante para a superação de desafios reais, proporcionam a conjunção entre conhecimento teórico e aplicação prática, contribuindo para uma formação significativa para além do uso comum da inteligência artificial.
BE – Como o senhor vê a relação entre educação pública de qualidade e desenvolvimento econômico regional?
Marcos Amorielle – O investimento nas instituições públicas de educação é um dos fatores primordiais para o efetivo desenvolvimento econômico da nossa região e do país. E não há como separar desenvolvimento econômico da superação da desigualdade social.
Dessa forma, a educação pública de qualidade deve ser compreendida como uma política pública de nação, pois, por meio de uma formação crítica e autônoma, com reais condições de acesso, permanência e êxito para todos, será possível construir uma sociedade mais justa, diminuir a desigualdade social e contribuir para o desenvolvimento econômico de toda a sociedade.
BE – O campus de Rio Preto possui planos de expansão, novos cursos ou investimentos previstos para os próximos anos?
Marcos Amorielle – Atualmente, o campus São José do Rio Preto do IFSP dispõe de apenas 30% do quadro de servidores previsto para o desenvolvimento de suas ações e atividades. As perspectivas para ampliação desse quadro são muito positivas devido à criação de milhares de códigos de vagas para os Institutos Federais.
Portanto, em breve, novos cursos em todos os níveis de ensino, conforme disposto na proposta educacional dos Institutos Federais, além do desenvolvimento de projetos de ensino, pesquisa e extensão voltados ao atendimento de demandas reais, serão iniciados, tornando nossa atuação cada vez mais ampla.
BE – Para os jovens que ainda não conhecem o Instituto Federal, qual diferencial o senhor destacaria no IFSP Rio Preto?
Marcos Amorielle – O Instituto Federal é uma instituição com uma proposta pedagógica única, baseada na integração entre formação profissional, crítica, humana e cidadã, ofertando cursos em todos os níveis de ensino e sendo um dos modelos educacionais de maior reconhecimento no Brasil.
Esse reconhecimento é fruto da atuação contínua dos nossos servidores. Portanto, destaco como principal diferencial do Instituto Federal o seu quadro de servidores, formado por professores e técnico-administrativos com formação de excelência e compreensão da responsabilidade de sua atuação para a efetivação de uma educação pública, gratuita, de qualidade, inclusiva e socialmente referenciada.
